O ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques viajou de Brasília a Maceió com a mulher em novembro de 2025 em jato particular custeado pela advogada Camilla Ewerton Ramos — que representa o Banco Master em três ações no STJ.
A aeronave é vinculada à empresa Prime You, que teve Daniel Vorcaro, dono do Master, como sócio até setembro de 2025. O episódio foi revelado pelo Estadão e confirmado pela TV Globo.
O ponto mais sensível: Nunes Marques é relator de uma ação no STF que pede ao Congresso a abertura de uma CPI para investigar justamente o caso Master.
A viagem e as conexões com o Master
O voo aconteceu em 14 de novembro de 2025, data confirmada pelo próprio gabinete do ministro em nota enviada à TV Globo. A assessoria explicou que Camilla convidou Nunes Marques e outros casais de amigos para sua festa de aniversário, ficando responsável pelo voo e pelos detalhes da viagem.
Em nota separada, a advogada afirmou que o voo foi “particular, privado e contratado de forma pessoal em virtude da comemoração de seu aniversário”. Camilla é casada com o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região — mesmo tribunal onde Nunes Marques atuou antes de chegar ao STF.
A ligação com o universo do Banco Master passa pela Prime You. A empresa, especializada no compartilhamento de jatos executivos, contou com Daniel Vorcaro entre seus sócios de setembro de 2021 até setembro de 2025. Mesmo após a saída formal, a companhia ainda administra bens do banqueiro.
Terminal VIP e encontros com advogado próximo
A viagem de novembro não é episódio isolado. Registros de entrada analisados pela TV Globo mostram que Nunes Marques acessou o terminal exclusivo para jatos executivos do aeroporto de Brasília ao menos 14 vezes ao longo de 2025.
Em pelo menos quatro dessas ocasiões, o advogado Luís Gustavo Severo estava no local no mesmo horário. Os dois têm relação próxima: em 2022, Nunes Marques apadrinhou a candidatura de Severo a uma vaga no TSE. Severo é especialista em direito eleitoral e atua no tribunal que o ministro vai presidir por um ano a partir de junho.
O gabinete ressaltou que o ministro “se declara suspeito nos casos de Gustavo Severo, por ser amigo pessoal do advogado” e que a suspeição foi registrada “em data muito anterior aos voos” — o que, segundo a nota, “protege a honra do Judiciário e assegura o direito de convivência do magistrado em sua vida privada”.
Padrão que vai além de Nunes Marques
O episódio não é o primeiro a aproximar ministros do STF de jatos ligados ao universo do Banco Master. A Folha de S.Paulo identificou ao menos oito voos do ministro Alexandre de Moraes em aeronaves da mesma empresa ligada a Daniel Vorcaro ao longo de 2025, incluindo voos da Prime Aviation, empresa irmã da Prime You.
Dias Toffoli também embarcou em jato da Prime Aviation em julho de 2025, episódio que acabou forçando sua saída da relatoria do caso Master no STF por conflito de interesses — o mesmo tipo de questionamento que agora recai sobre Nunes Marques.
O caso Master é um dos mais sensíveis em tramitação no Judiciário brasileiro. A situação do banco gerou debates sobre o fundo garantidor de crédito e os riscos de contágio no sistema financeiro, e está no centro de disputas que envolvem tanto o STF quanto o STJ.
Com Nunes Marques na relatoria de uma ação que pode definir os rumos de uma CPI sobre o banco, a revelação do voo aumenta a pressão sobre a Corte e alimenta o debate sobre os limites entre a vida privada de magistrados e suas obrigações institucionais.
