O Ministério da Fazenda anunciou a criação do Projeto MIT (Mutual Interdiction Team), parceria operacional entre a Receita Federal brasileira e o U.S. Customs and Border Protection (CBP), agência americana de controle de fronteiras.
O acordo prevê integração de inteligência e operações conjuntas para interceptar remessas ilícitas de armamentos e entorpecentes — e surge em meio a um momento de alta tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos.
A iniciativa entra em cena enquanto o governo americano avalia a possibilidade de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas — uma designação que, pelas regras do Departamento de Estado americano, impõe restrições e sanções econômicas aos grupos enquadrados.
A parceria com o CBP é anunciada exatamente no momento em que, segundo o New York Times, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro pressionaram o governo Trump para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — pressão que chegou a integrantes diretos da administração americana.
O Projeto MIT emerge também em meio à ofensiva diplomática do Itamaraty para conter esse enquadramento. O Brasil tem atuado para barrar a classificação das facções como terroristas nos EUA, esforço que levou o chanceler Mauro Vieira a contatar diretamente o secretário de Estado Marco Rubio.
Oficialmente, Washington não confirmou nem descartou a possibilidade da designação. A Casa Branca sustenta que o enquadramento é destinado a grupos que representam risco direto à segurança interna americana — a maior parte dos casos envolve cartéis mexicanos —, o que, segundo o governo americano, não se aplicaria às facções brasileiras.
Histórico de atrito bilateral dá contexto à cooperação
A parceria não surge num vácuo. Durante seu atual mandato, Donald Trump chegou a impor tarifas adicionais a produtos brasileiros e sancionou o ministro do STF Alexandre de Moraes — retaliação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. As medidas foram revertidas após negociações diretas entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas deixaram marcas visíveis na relação bilateral.
Nesse contexto, a cooperação operacional com o CBP pode ser lida como parte de uma estratégia brasileira mais ampla para demonstrar autonomia no combate ao crime transnacional. Uma das peças do argumento brasileiro para conter a classificação terrorista é justamente provar essa capacidade — estratégia que agora ganha forma concreta com a parceria junto ao CBP.
Trump tem promovido, desde o início do mandato, uma campanha sistemática para designar grupos criminosos latino-americanos como organizações terroristas. No caso da Venezuela, a tática foi usada como pretexto para operações militares próximas às águas do país, que culminaram na captura de Nicolás Maduro — um precedente que Brasília acompanha com atenção.
