A defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, admitiu nesta segunda-feira (16) que ele viajou a Portugal com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS — preso desde setembro de 2024 por suspeita de desvios de aposentadorias e pensões.
É a primeira vez que o advogado Marco Aurélio de Carvalho reconhece qualquer vínculo entre o filho do presidente Lula e o lobista investigado. A viagem ocorreu em novembro de 2024, a convite do Careca, para visitar uma fábrica de cannabis medicinal em Lisboa.
Carvalho afirma que a visita não gerou parceria comercial, que Lulinha não pagou pela viagem e que o filho do presidente não recebeu dinheiro desviado do INSS.
Pagamentos e mensagens suspeitas nas investigações
A Polícia Federal, que deflagrou a Operação Sem Desconto em abril de 2025, identificou cinco pagamentos de R$ 300 mil feitos por uma empresa do Careca do INSS a uma empresa de Roberta Luchsinger, somando R$ 1,5 milhão. Roberta é amiga próxima de Lulinha e de sua esposa, Renata.
Em mensagens de WhatsApp recuperadas pela investigação, um ex-sócio do lobista questiona um dos depósitos de R$ 300 mil feitos a Roberta. O Careca responde que o valor era “para o filho do rapaz” — sem citar o nome da pessoa.
Um ex-funcionário do lobista declarou à PF que o Careca costumava dizer à sua equipe que pagava uma mesada mensal de R$ 300 mil a Lulinha. Segundo essa testemunha, o objetivo era que o filho do presidente ajudasse a empresa World Cannabis a vender produtos de canabidiol para o Ministério da Saúde.
Envelope com o nome “Fábio”
Em outro trecho das investigações, a empresária Roberta menciona em conversa com o Careca que “acharam um envelope com o nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão”. O envelope trazia o nome “Fábio” e ingressos para um show. O lobista respondeu “Putz” e ela completou: “Antônio, some com esses telefones. Joga fora”.
A defesa nega que Lulinha tenha recebido recursos de Roberta ou do Careca, e descarta qualquer lobby junto ao Ministério da Saúde ou à Anvisa para favorecer a venda de canabidiol ao governo.
STF suspende quebra de sigilo e caso vai ao plenário presencial
A quebra do sigilo bancário e fiscal de Lulinha foi aprovada pela PF em janeiro deste ano e pela CPMI do INSS em fevereiro. A decisão da CPMI, porém, foi suspensa pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. O ministro Gilmar Mendes pediu destaque e transferiu o julgamento para o plenário presencial, zerando o placar da votação virtual que analisava a validade das quebras aprovadas pela CPMI — o plenário ainda não se pronunciou sobre o caso.
A quebra de sigilo aprovada pela PF já havia exposto R$ 19,5 milhões em movimentações nas contas de Lulinha entre 2022 e 2026, incluindo três repasses diretos do presidente Lula somando R$ 721 mil, além de 17 transferências a um ex-sócio, Jonas Suassuna, totalizando R$ 704 mil. A defesa afirma que todas as transações foram regulares.
Até a semana passada, a defesa negava qualquer relação de Lulinha com as fraudes e classificava o vazamento dos extratos sigilosos como “crime grave”. A admissão da viagem a Portugal representa uma virada na postura pública da defesa — ainda que Carvalho insista que os vínculos com o Careca foram estritamente pessoais e comerciais, sem envolvimento nos desvios investigados.