O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (7) que pretende enviar ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma fotografia dos dados que comprovam a queda do desmatamento no Brasil.
A declaração ocorreu durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP), quando Lula relacionou os gráficos da queda do desmatamento à justificativa usada pelos Estados Unidos para o tarifaço contra produtos brasileiros.
Os dados divulgados pelo INPE mostram que os alertas de desmatamento na Amazônia Legal caíram 36% entre agosto de 2025 e julho de 2026, em relação aos 12 meses anteriores — totalizando 2.874,38 km², contra 4.495 km² no período precedente. É o menor acumulado do sistema Deter desde o início da série histórica, em 2016.
O desmatamento como munição diplomática
O desmatamento ilegal foi um dos principais argumentos usados pelo governo americano para justificar a imposição das tarifas contra o Brasil. Segundo investigação conduzida pelos Estados Unidos, produtos como madeira e carne brasileiros seriam mais competitivos por serem originados em áreas associadas a crimes ambientais.
Semanas antes da visita ao INPE, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, já havia levado esse argumento ao Senado americano, afirmando que o desmatamento no Brasil coloca agricultores dos EUA em desvantagem. É essa narrativa que Lula agora tenta rebater com os gráficos oficiais do INPE. O presidente afirmou que o país levará os dados do instituto a toda reunião bilateral com o governo americano.
“Os números estão indicando que se a gente continuar com o ritmo que a gente está, com a seriedade que a gente está, e colocando o recurso necessário, a gente pode atingir [o desmatamento zero em 2030]”, disse Lula durante o evento, ao qual também compareceram o vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, e da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos.
No Cerrado, os alertas de desmatamento também recuaram, em ritmo mais moderado: foram registrados 5.119,46 km² de vegetação nativa sob alerta de supressão nos últimos 12 meses, queda de 7,8% em relação ao período anterior. Segundo o Observatório do Clima, os resultados do Deter reforçam a chance de o Prodes — indicador oficial do desmatamento anual na Amazônia, divulgado normalmente em novembro — também registrar o menor índice da série histórica, iniciada em 1988, superando o recorde de 2012, quando a taxa anual ficou abaixo de 5 mil km² durante o governo Dilma Rousseff.
No evento, Lula também criticou a postura do republicano sobre a agenda ambiental. “Eu vi o Trump falando na ONU que não acredita nesse negócio de questão climática, que é tudo mentira”, disse o presidente brasileiro.
Apesar das críticas, Lula lembrou os encontros que já teve com Trump e afirmou ter sido bem recebido na Casa Branca. Ele reforçou que Brasil e Estados Unidos têm a responsabilidade de manter a harmonia entre “as duas maiores democracias do mundo”.
Crise diplomática em novo capítulo
Lula também atribuiu a Marco Rubio, secretário de Estado americano, parte da dificuldade nas negociações sobre o tarifaço, dizendo que ele “não gosta do Brasil”. A fala reforça uma estratégia que o presidente brasileiro já havia anunciado no início do conflito comercial, quando declarou uma “guerra da verdade” contra Trump em resposta às tarifas impostas a produtos brasileiros.
A relação entre os dois países vive um momento de tensão desde a revogação, nesta terça-feira (4), do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Segundo o Departamento de Estado americano, a medida foi uma resposta à demora do governo brasileiro em conceder aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
O nome de Perez foi aprovado pelo Senado americano nesta sexta-feira (7). Agora, cabe ao Itamaraty decidir se concede o agrément — autorização necessária para que um embaixador estrangeiro tome posse no cargo.