Sem alianças partidárias consolidadas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) oficializa neste sábado (25) sua candidatura à Presidência da República em convenção no Pacaembu, em São Paulo.
O evento reúne o presidente argentino Javier Milei, que antes passa pelo Palácio dos Bandeirantes para receber do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) a Ordem do Ipiranga, maior honraria do Estado.
A vinda de Milei ocorre em meio a escândalos de corrupção e à baixa popularidade do líder argentino em seu próprio país.
Um símbolo, não um cabo eleitoral
Para a professora Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a presença de Milei dificilmente se traduz em votos para Flávio. “A presença dele energiza, consolida o núcleo duro do eleitorado de direita”, avalia a pesquisadora especializada em América Latina.
Segundo Bressan, o argentino atua muito mais como um símbolo de radicalismo econômico e de “coragem discursiva” do que como um cabo eleitoral capaz de arrastar eleitores indecisos para o campo de Flávio.
Turnê pela direita latino-americana
A passagem por São Paulo é apenas uma etapa da estratégia de Milei de se consolidar como referência ideológica na região. Milei já havia confirmado a viagem ao Brasil duas semanas antes, aproveitando o anúncio para revelar que também estaria nas posses de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo de la Espriella, na Colômbia — a mesma turnê que o levará a São Paulo. Antes de Bogotá, ele ainda deve conversar com o presidente equatoriano Daniel Noboa, também conservador.
“Milei tem esse plano de se consolidar em países onde a direita está crescendo”, diz Bressan, para quem o interesse do argentino em desembarcar no Brasil também é pessoal: reforçar sua imagem como liderança intelectual da direita ocidental.
O avanço da direita radical na região ocorre em meio a atritos comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Nesta semana entraram em vigor novas tarifas de Donald Trump contra produtos brasileiros, movimento que analistas associam à pressão política sobre o país às vésperas das eleições.
Bastidores: visita negada e reação do Planalto
O plano original de Milei incluía visitar Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar em Brasília, mas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou o pedido por entender que o ex-presidente está proibido de receber visitas com finalidade político-eleitoral até o fim do pleito. A negativa gerou reação imediata da pré-campanha: o senador Rogério Marinho, coordenador da candidatura de Flávio, chamou as restrições de “silenciamento político”.
O Palácio do Planalto afirmou não ver problema na presença de Milei na convenção do PL, mas avisou que vai rebater qualquer declaração do argentino sobre temas internos, como urnas eletrônicas e o processo eleitoral brasileiro.
Em seu país, Milei enfrenta desgaste: pesquisa da AtlasIntel mostra que 58% dos argentinos desaprovam seu governo, reflexo de casos como o escândalo do ex-chefe de Gabinete Manuel Adorni e áudios que citam a irmã do presidente, Karina Milei, em suposto esquema de propina.
Apesar das crises, Flávio segue competitivo: aparece em segundo lugar na corrida ao primeiro turno, atrás de Lula (PT), e teria 42% dos votos num eventual segundo turno contra 46% do petista, segundo agregador de pesquisas.
