Um relatório da Academy of Medical Royal Colleges coloca as redes sociais no mesmo patamar do tabagismo como problema de saúde pública — e pressiona o governo britânico a agir.
Metade dos 454 médicos ouvidos trata ao menos uma criança por semana com sofrimento psíquico ou lesões físicas causadas por conteúdos online.
O alerta chega no último dia de uma consulta pública do governo de Keir Starmer sobre proibir o acesso de menores de 16 anos às plataformas, seguindo o modelo australiano.
O relatório da academia, que reúne as principais instituições médicas britânicas, enquadra o problema com precisão clínica: o uso de redes sociais é uma questão de saúde pública "comparável ao tabagismo e ao uso do cinto de segurança no carro". A analogia não é acidental — ela convoca o Estado a agir de forma compulsória, como fez com o cigarro.
Dos 454 médicos consultados, metade relata ver semanalmente ao menos uma criança com angústia mental ou lesões físicas associadas ao consumo de conteúdo digital. Os relatos incluem uma "onda de crianças radicalizadas" após exposição a material de ódio, viciante e extremamente perturbador.
Dois lutos, dois posicionamentos
Starmer se reuniu nesta terça com pais que acreditam que as plataformas contribuíram para a morte de seus filhos — e os casos expõem a complexidade do debate. Esther Ghey, mãe de uma adolescente transgênero assassinada em 2023 por dois jovens, defende o veto total a menores. Já Ian Russell se opõe à proibição: sua filha tirou a própria vida aos 14 anos após acessar conteúdos pró-suicídio — ele prefere regulação a bloqueio. O drama da família Russell é emblemático de um problema que levou o Instagram a lançar no Brasil alertas automáticos para pais quando adolescentes buscam repetidamente por suicídio ou automutilação.
A iniciativa britânica não está isolada: a Comissão Europeia anunciou em maio legislação para restringir o acesso de menores às plataformas em todo o continente, com possível idade mínima unificada de 16 anos.
Big techs na berlinda e prazo para decisão
O ex-secretário da Saúde Wes Streeting — que deixou o cargo este mês e é apontado como rival de Starmer na liderança trabalhista — foi direto à BBC: "O que vimos das grandes empresas de tecnologia é semelhante ao comportamento da indústria do tabaco." A fala resume o consenso médico e político que cercou o encerramento da consulta.
A comparação com o tabaco ganha peso concreto fora do Reino Unido: a Meta fechou acordo judicial nos EUA para cobrir os custos que escolas americanas tiveram para lidar com o vício dos alunos em redes sociais — ao menos 1,2 mil outros distritos escolares buscam solução semelhante.
Em meados de abril, Starmer já havia insinuado restrições de acesso para menores por razões de segurança, sem comprometer uma decisão antes do fim da consulta. A ministra da Tecnologia, Liz Kendall, foi mais direta: o governo agirá antes do final de 2026 para implementar os resultados do processo.
A proibição total permanece incerta. Mas ao equiparar redes sociais ao cigarro, os médicos britânicos pedem que o Estado trate o problema como fez com outras epidemias silenciosas — com normas claras e aplicação compulsória.
