Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram que um agente ativo do órgão se oferecia espontaneamente para prestar serviços ilegais ao grupo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro.
A revelação consta na decisão do ministro do STF André Mendonça que autorizou, nesta quinta-feira (14), a 6ª fase da Operação Compliance Zero.
O agente Anderson Wander da Silva Lima, lotado na Delegacia Especial da PF no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, mantinha contato regular com Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado e integrante do núcleo "A Turma".
Do primeiro "trabalhinho" ao acesso a inquérito sigiloso
Segundo as investigações, Anderson Wander atuava junto a Marilson desde agosto de 2023, repassando informações sigilosas de forma estável e sistemática.
No mês seguinte ao primeiro serviço, foi o próprio agente quem tomou a iniciativa: enviou um áudio ao ex-policial dizendo querer fazer uns "trabalhinhos". Marilson respondeu que um serviço surgiria em outubro, possivelmente no Rio, e que precisaria do apoio "de vocês aí".
Para o ministro André Mendonça, o trecho revela que Anderson "não era mero executor de uma consulta ou outra, mas alguém integrado a circuito de demandas futuras e com expectativa de remuneração, prestando-se a atuar reiteradamente em favor da organização".
Inquérito e novas demandas
Em outubro, Marilson pediu ao agente que verificasse se uma pessoa ainda estava no Chile — a decisão não revela a identidade do alvo nem se a informação foi confirmada.
Em fevereiro de 2024, Marilson escalou as exigências: queria informações de um inquérito policial sobre crime financeiro envolvendo Daniel Vorcaro. Anderson recrutou três colegas da PF para acessar o processo.
Ao repassar o material, levou uma reprimenda: havia enviado o conteúdo integral do inquérito, quando Marilson queria apenas um resumo "sucinto". Uma semana depois, novo pedido chegou — desta vez, sobre uma intimação recebida por Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, preso na mesma operação nesta quinta-feira (14).
"A Turma" era o núcleo responsável por realizar ameaças violentas a adversários de Daniel Vorcaro, conforme mapeado pela PF. A 6ª fase da Compliance Zero mirou membros e colaboradores desse grupo nesta quinta-feira (14).
Anderson Wander não era o único policial federal infiltrado no esquema: uma delegada e outros agentes já haviam sido identificados repassando informações sigilosas ao operador Marilson via sistema e-Pol — estrutura de infiltração que a PF mapeou na mesma operação.
A intimação que levou Marilson a acionar Anderson Wander envolvia Henrique Vorcaro — o mesmo pai do banqueiro que, segundo a investigação, seguia repassando R$ 400 mil mensais ao grupo e demandava informações sigilosas sobre o inquérito mesmo após as primeiras fases da Compliance Zero.
