Com base em indícios de que Daniel Vorcaro pagou um “bônus de final de ano” a integrantes do grupo miliciano “A Turma”, o ministro do STF André Mendonça autorizou nesta quinta-feira (14) a 6ª fase da Operação Compliance Zero.
A estrutura paralela, supostamente comandada pelo banqueiro — que está preso —, era usada para ameaças, intimidações e acesso indevido a sistemas governamentais em favor dos interesses de Vorcaro.
A investigação da Polícia Federal detalha como o pagamento chegou ao grupo. Em dezembro de 2025, Marilson Roseno da Silva — policial federal aposentado e apontado como operador financeiro dos repasses — solicitou a chave Pix de Anderson Wander da Silva Lima, agente lotado na Delegacia Especial da PF no Aeroporto Internacional do Galeão.
A PF concluiu que o valor era compatível com o bônus de fim de ano que Vorcaro teria destinado aos integrantes — indicando que a remuneração dos milicianos seguia uma lógica estruturada, quase corporativa.
O agente Anderson Wander, cujo Pix foi solicitado por Marilson para repassar o bônus, não era um executor passivo: desde agosto de 2023 ele próprio tomava a iniciativa de se oferecer para “trabalhinhos” para o grupo, segundo mensagens apreendidas pela PF.
O pai de Vorcaro também aparece como peça central. Segundo os investigadores, o grupo liderado por Marilson era acionado por ele para demandar vantagens ilícitas — e, enquanto Daniel destinava o bônus de fim de ano, Henrique Vorcaro sustentava “A Turma” com repasses mensais de R$ 400 mil, pagamentos que não foram interrompidos mesmo após as primeiras fases da operação.
Entre os investigados da própria PF estão agentes que consultavam o sistema e-Pol — plataforma interna da corporação — para repassar informações sigilosas a Marilson Roseno. Os identificados como Valéria e Francisco atuavam nessa função de alimentar o grupo com dados protegidos.
A decisão do STF também cita Manoel Mendes Rodrigues, apresentado como “empresário do jogo” do bicho no Rio de Janeiro e apontado como líder de um braço local de “A Turma”. Segundo a PF, Rodrigues era acionado para dar peso físico às ameaças — sua reputação no meio da contravenção era parte calculada da engrenagem de intimidação montada em torno de Vorcaro.
O caso revela uma divisão funcional dentro do grupo: de um lado, agentes da PF que forneciam dados sigilosos a partir de sistemas internos; de outro, operadores ligados ao jogo do bicho que davam musculatura às ameaças presenciais.
A 6ª fase da Compliance Zero marca uma expansão do raio de investigação, alcançando tanto a cúpula financeira — com o próprio Vorcaro preso — quanto a rede de suporte que mantinha a estrutura funcionando com remuneração regular, incluindo bônus sazonais.
