Meio ambiente

Queimadas fazem a Amazônia emitir mais CO₂ do que absorve, mostra estudo do Inpe

Pesquisa na Nature com 15 anos de medições aponta a ação humana como causa e alerta para o risco de um ponto de não retorno
Vista aérea da floresta amazônica, com marcas de calor, ilustrando queimadas Amazônia emissões de CO2 segundo estudo do Inpe

A Amazônia libera mais dióxido de carbono do que retira da atmosfera, e o fogo é o principal responsável. É a conclusão de um estudo liderado pelo Inpe e publicado na revista Nature em 21 de outubro.

Entre 2010 e 2024, as queimadas emitiram em média cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, quase cinco vezes a capacidade de absorção da floresta, estimada em 300 milhões de toneladas anuais.

Para os autores, o desequilíbrio tem origem humana, e só uma redução drástica do fogo, somada ao desmatamento zero e à restauração florestal, pode afastar a floresta de um ponto de não retorno.

A principal autora do artigo, a cientista do clima Luciana Vanni Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe, resume: “A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição”.

Três cenários, um mesmo vilão

Os pesquisadores dividiram os 15 anos em três grupos: anos chuvosos e de pouca interferência humana; o período de 2019 a 2022, de clima ameno, mas com desmatamento 97% maior e queimadas 25% acima; e anos quentes e secos, sob El Niño e aquecimento do Atlântico tropical norte, com alta de 92% no fogo.

Nos dois últimos cenários, a floresta deixou de estocar e passou a emitir carbono. O balanço médio chegou a cerca de 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ por ano no segundo grupo e a 1,8 bilhão no terceiro.

O dado que mais pesa: descontado o fogo, a Amazônia absorveu praticamente o mesmo que devolveu à atmosfera nos três cenários. Com a troca líquida de carbono perto da neutralidade, sobra pouca ou nenhuma folga para compensar o que as queimadas lançam no ar.

O segundo grupo só não teve resultado pior por causa da La Niña. Segundo Gatti, a absorção na estação chuvosa compensou 75% das emissões da seca nesse período.

Menos chuva, mais calor

Com 46 anos de dados, os cientistas atribuem ao desmatamento e à degradação uma queda de 8% na chuva anual e de 20% no auge da seca, entre agosto e outubro. A temperatura média subiu 1,13 °C no ano e 1,81 °C na estação seca.

O número dialoga com outra pesquisa, na Nature Communications, que já atribuía ao desmatamento cerca de 75% da perda de chuva na estação seca.

Para Gatti, forma-se um ciclo: menos floresta traz menos chuva e mais calor, o que favorece novos incêndios. “É um estresse muito grande sobre a floresta que fica”, disse a pesquisadora à Agência Fapesp.

Alerta chega em ano de fogo intenso

O estudo sai quando os focos de incêndio na Amazônia já se aproximam do total de 2025. Dados do Inpe somam mais de 41.300 registros em menos de dez meses, 58% deles em setembro e outubro, contra 43.130 em todo o ano passado.

No Amazonas, a fumaça cobriu municípios e, em Manaus, levou à suspensão de aulas e à sobrecarga do sistema de saúde. Há investigação de crime ambiental, com suspeita de ação humana deliberada.

O que vem pela frente

Os resultados vêm de voos de pequenos aviões que, desde 2010, coletam ar em quatro pontos da Amazônia para medir CO₂ e monóxido de carbono. Os dois artigos anteriores do grupo na Nature já indicavam a virada para fonte de carbono, sobretudo nas áreas mais desmatadas. Outro estudo, publicado há três semanas, já indicava que o calor e a falta de água podem fazer a floresta liberar mais carbono do que retém.

Desde 2022, a equipe analisa o sulfeto de carbonila, marcador que mede a fotossíntese com mais precisão e deve ajudar a entender se a floresta perde força por fazer menos fotossíntese ou por sofrer mais decomposição. Para o IPAM, não existe um único ponto de não retorno, mas múltiplos colapsos regionais, e ainda há janela para reverter o quadro.