O principal motor das emissões de carbono da Amazônia brasileira é a ação humana, e não a seca. A conclusão vem de um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) publicado nesta quarta-feira (21) na revista Nature.
Os pesquisadores usaram 15 anos de medições de CO₂ feitas por aviões sobre a floresta. Entre 2010 e 2024, a região lançou na atmosfera, em média, 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano a mais do que absorveu.
Mesmo nos anos de seca extrema, provocada pelo El Niño e pelo aquecimento do Atlântico, a ação humana pesou mais. Segundo o estudo, 98% das queimadas estão associadas a pessoas.
Clima extremo amplifica um estrago causado pela ação humana
Uma floresta saudável funciona como sumidouro: retira gás carbônico do ar para crescer e ajuda a conter o aquecimento global. Na Amazônia brasileira, esse saldo ficou negativo. Para explicar por quê, a pesquisa separou o peso de duas forças.
A primeira é a interferência humana direta. O desmatamento elimina as árvores que capturariam carbono, e o fogo devolve à atmosfera o carbono estocado na vegetação. A segunda é o clima: secas e calor extremos fazem a floresta crescer menos e, portanto, absorver menos.
O resultado aponta que a ação humana domina. O clima extremo entra como fator de agravamento de uma degradação que começa no chão da floresta.
Três períodos, três fatores dominantes
Para isolar cada efeito, a análise estatística dividiu os 15 anos em três grupos, cada um marcado por um fator predominante. O segundo grupo funcionou quase como um experimento natural: o clima ficou próximo ao dos anos favoráveis, o que deveria ter reduzido as emissões. Isso não ocorreu porque o período teve desmatamento recorde, com a falta de fiscalização durante a política ambiental do governo Jair Bolsonaro.
No terceiro grupo, o movimento foi o inverso. Em 2023 e 2024, já no governo Lula, a fiscalização foi retomada e o desmatamento caiu, mas as emissões subiram. Segundo a pesquisadora Luciana Gatti, autora principal do estudo, mudança climática e ação humana se somaram. Na pior seca enfrentada pela região Norte nos últimos anos, a área queimada foi 92% maior que nos anos chuvosos, e quase todo esse fogo foi provocado por pessoas.
Nos anos de seca extrema, a emissão causada pelo fogo chegou a superar o saldo total da floresta. Ou seja, a vegetação ainda absorveu parte do carbono liberado pelas chamas. Sem as queimadas, até os anos mais secos teriam balanço bem menos negativo.
Pesquisadora titular do Inpe, Gatti estuda há quase 40 anos o papel da floresta no ciclo global do carbono. Este é seu quarto artigo como autora principal na Nature, marca inédita para uma cientista brasileira na revista.
Fogo muda de lugar quando a fiscalização aperta
Para Gatti, os dados sugerem uma mudança de estratégia de quem destrói a floresta: os anos com mais fogo coincidem com períodos de fiscalização mais rígida contra o desmatamento.
O quadro aparece no Amazonas. Uma análise do Inpe feita a pedido do g1 mostrou que a maior parte dos incêndios no estado ocorre em propriedades rurais com Cadastro Ambiental Rural (CAR), ou seja, em áreas privadas. Na primeira quinzena de outubro, 79,1% dos focos registrados no Amazonas estavam nesses imóveis. Para o Ibama, o dado reforça as investigações que apontam origem humana e criminosa.
O uso do fogo no manejo do solo, como na limpeza de pastagem, depende de autorização caso a caso do governo estadual, e não há permissões concedidas. Desde 9 de setembro, o Amazonas também proíbe queimadas, mas os incêndios continuaram. O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirma que a seca favorece o fogo, mas que no estado a ignição é humana e que criminosos se aproveitam desse cenário.
Floresta mais quente e com menos chuva
O efeito vai além do carbono. A umidade da Amazônia é levada para outras regiões do país, onde ajuda a trazer chuva e a amenizar o calor. Segundo o estudo, em 46 anos a chuva anual na região caiu 8%, e 20% no auge da estação seca, enquanto a temperatura média subiu 1,13 °C. Outro estudo, na Nature Communications, já havia atribuído ao desmatamento cerca de 75% da perda de chuva na estação seca amazônica.