Saúde

Leishmaniose visceral escapa de teste rápido e confunde diagnóstico em idoso de 86 anos

Relato de pesquisadores da USP e da UFRN alerta médicos de áreas endêmicas a não descartar a infecção diante de exame negativo
Símbolo do SUS e campus da USP ilustrando o diagnóstico de leishmaniose visceral em pesquisa sobre teste rápido negativo

Um falso negativo no teste rápido quase deixou passar a leishmaniose visceral em um paciente de 86 anos do Rio Grande do Norte. Ele estava internado com febre recorrente, perda de peso e queda grave das células do sangue, e os médicos investigavam uma doença da medula óssea.

O caso foi descrito na revista Discover Medicine por pesquisadores da USP e da UFRN, segundo reportagem de Amanda Yoshizaki para o Jornal da USP. O homem tinha ao mesmo tempo síndrome mielodisplásica e a infecção, e morreu antes de concluir o tratamento.

Para os autores, o diagnóstico de leishmaniose visceral deve ser considerado em áreas endêmicas mesmo quando os primeiros exames apontam para outro problema.

Por que o teste rápido falhou

O paciente chegou ao hospital com sinais semelhantes aos de uma leucemia aguda, entre eles a pancitopenia, redução grave de diferentes tipos de células do sangue. Os primeiros exames da medula óssea levantaram a suspeita de síndrome mielodisplásica, conjunto de doenças em que a produção das células sanguíneas ocorre de forma anormal.

A confusão tem explicação. Segundo Sandra Márcia Muxel, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e orientadora da pesquisa, a leishmaniose visceral também atinge a medula óssea e pode causar anemia e queda de glóbulos brancos e plaquetas, alterações que também aparecem em doenças hematológicas.

O teste rápido rK39, que procura no sangue anticorpos contra o parasita, deu negativo. “Quando indivíduos estão com um comprometimento do sistema imunológico da medula óssea, a produção de anticorpos pode estar reduzida, o que diminui a sensibilidade do teste e faz com que a infecção passe despercebida”, explica Ian Antunes, doutorando em Imunologia no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e primeiro autor do artigo.

Microscopia e PCR confirmaram a infecção

Como o paciente vinha de uma região endêmica, a equipe manteve a suspeita e analisou ao microscópio uma amostra da medula óssea. “Foi possível identificar visualmente as formas amastigotas [estágio evolutivo intracelular] do parasita Leishmania infantum na medula do paciente, uma quantidade muito grande”, relata Muxel.

A confirmação veio pela reação em cadeia da polimerase (PCR), exame de biologia molecular considerado padrão ouro, que detectou o material genético do parasita.

O quadro, porém, era grave e evoluiu rápido. O paciente recusou transfusões de sangue por motivos religiosos, o que limitou o suporte durante a internação. “O paciente não teve nem tempo de receber o tratamento completo para a leishmaniose, porque veio a falecer”, conta a professora.

Doença negligenciada e fatal sem tratamento

“A leishmaniose é uma doença que, se não for tratada, é fatal. Um diagnóstico correto é essencial para iniciar o tratamento mais rapidamente”, afirma Muxel. Para ela, o médico precisa entender por onde o paciente circulou, onde mora e quais microrganismos são endêmicos na região.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a leishmaniose visceral é endêmica em 80 países, com 50 mil a 90 mil casos por ano, dos quais só 25% a 45% são notificados. O Brasil responde por cerca de 92% dos casos das Américas, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). O Nordeste concentra a maior parte das ocorrências no país.

As diretrizes da Opas recomendam a anfotericina B lipossomal, oferecida pelo SUS. Em julho, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS a combinação desse medicamento com a miltefosina para casos graves em pacientes imunocomprometidos.

A partir do caso, o grupo quer entender como o parasita altera o ambiente da medula óssea, em busca de novas estratégias de diagnóstico e tratamento. Outra frente da universidade, publicada no início do mês, busca novos tratamentos para a forma cutânea da doença. O estudo teve apoio da Fapesp e do CNPq.