Meio ambiente

Seca artificial de 23 anos no Pará mostra que a Amazônia não vira savana, mas floresta degradada

Experimento em Caxiuanã matou as árvores gigantes, mas as menores se ajustaram; agora cientistas testam se a mata consegue se recuperar
Vista aérea da floresta amazônica degradada, ilustrando o experimento de seca na Amazônia em Caxiuanã, no Pará

Um trecho de floresta no Pará passou 23 anos recebendo só metade da chuva e não virou savana. As árvores mais altas morreram e a biomassa caiu quase pela metade. Já as menores se ajustaram à pouca água e voltaram a crescer, e a mata chegou a um novo equilíbrio.

O resultado vem do Projeto Esecaflor, um experimento de seca na Amazônia iniciado em 2001 na Floresta Nacional de Caxiuanã e descrito em estudo de maio de 2025 na revista Nature Ecology & Evolution. Em reportagem da Mongabay Brasil editada por Xavier Bartaburu, os cientistas do projeto descrevem a área como um ecossistema novo e degradado.

Como funcionou a seca artificial

Em 2001, 6 mil painéis plásticos transparentes foram instalados sob a copa das árvores, entre 1 e 4 metros acima do solo, numa área de 1 hectare. Calhas e canaletas desviavam cerca de 50% da água da chuva para fora da parcela. Ao lado, uma área do mesmo tamanho ficou intacta e serve de comparação.

Nas duas parcelas, a equipe mede a umidade do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e as raízes. Duas torres de 40 metros com radares da Nasa enviam os dados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência, na Califórnia.

A cronologia da perda

Nos três primeiros anos, a reserva de umidade do solo segurou a floresta e nada mudou. No quinto ano começaram as mortes, sobretudo de árvores com tronco acima de 50 centímetros de diâmetro, que precisam de mais água. Com oito anos, 40% da biomassa já tinha sido perdida. O pico das perdas veio aos 15 anos.

“Com o desaparecimento das grandes árvores, perdemos quase 50% da biomassa. Mas a pequena quantidade de água disponível foi suficiente para que as árvores menores a redistribuíssem até conseguirem reverter o sinal de mortalidade”, afirma o meteorologista Antonio Lôla da Costa, da UFPA, coordenador nacional do projeto.

A floresta que ficou é mais baixa, menos densa e guarda menos carbono do que antes.

Por que as gigantes morrem primeiro

A ecóloga britânica Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, conta que a equipe atribuía as mortes a vasos mais sujeitos à embolia. Hoje, a explicação mais provável é outra: as copas mais altas ficam acima do dossel e mais expostas ao ar seco e quente. Ela lembra que a seca natural atinge a vegetação pelo solo e pelo ar, enquanto a do experimento age só no solo.

Floresta degradada, não savana

Rowland rejeita o uso de “savana” para essa possível nova Amazônia: “A floresta tropical jamais se transformará em savana, mas em um ecossistema novo e altamente degradado, para o qual não temos referências naturais”. Para ela, o cerrado é um bioma rico em espécies, e vê-lo como “terreno baldio” favoreceu sua destruição.

A nova fase do experimento

Em novembro de 2024, os painéis foram retirados e a chuva voltou a cair normalmente. A dúvida agora é se espécies como a sumaúma, a andiroba e o angelim-vermelho voltam a crescer. Essas árvores retiram carbono do ar e alimentam os rios voadores. Segundo Rowland, algumas podem levar décadas ou séculos para se recuperar.

O ecólogo Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo, alerta que a área “parece estável por enquanto”, mas está mais aberta e “podendo ser mais vulnerável a futuros extremos climáticos”. A redução de chuva simulada já aparece em projeções: o sul da Amazônia pode perder até 14% das chuvas até 2050. Outro estudo calculou que o risco de secas extremas pode crescer nove vezes até 2100.

Lôla diferencia a seca controlada do desmatamento: “A floresta não vai entrar em colapso se soubermos manejá-la. Mas se for lá com uma máquina e destruir 100, 200, 300 hectares em um dia, aí ela não vai reagir nunca.”