Um anticorpo monoclonal criado para combater câncer ganhou nova função no Brasil. A Anvisa aprovou o uso do Gazyva (obinutuzumabe) em pacientes adultos com lúpus ativo moderado a grave, positivos para autoanticorpos e já em uso de tratamento padrão.
A decisão foi divulgada em nota pela agência nesta quarta-feira (14) e amplia as opções contra uma condição autoimune crônica que inflama pele, articulações, rins, sistema sanguíneo e sistema nervoso central.
Por que o alvo são os linfócitos B
O obinutuzumabe é um anticorpo monoclonal humanizado que promove eliminação massiva e prolongada dos linfócitos B, células com papel central nos processos fisiológicos anormais que levam ao desenvolvimento do lúpus, informou a Anvisa.
Na avaliação da agência, a nova indicação reduz a atividade da doença, diminui a ocorrência de exacerbações e permite “redução sustentada da exposição a corticosteroides”. Os ganhos citados são os apresentados pela própria reguladora ao autorizar a ampliação de uso.
O detalhe importa porque, ainda segundo a Anvisa, mesmo com terapias convencionais e biológicas já disponíveis uma parcela significativa de pacientes permanece em estágio ativo constante: sofre surtos recorrentes ou se torna dependente do uso contínuo de corticosteroides, remédios que carregam efeitos colaterais importantes no longo prazo.
Os linfócitos B também estão na origem do linfoma difuso de grandes células B, para o qual a Anvisa aprovou em julho outra terapia com anticorpo que atua sobre essas mesmas células.
Os órgãos que a doença ataca
O Ministério da Saúde alerta que o lúpus, quando não tratado corretamente, pode provocar complicações graves em diversos órgãos e tecidos e levar à morte. A falência dos rins está entre as principais causas de óbito nos primeiros cinco anos após o diagnóstico, com sinais como coceira generalizada, dores no peito, falta de ar, náuseas, vômito e edemas.
Quando alcança o cérebro, a doença pode causar dor de cabeça, confusão, tontura, mudanças de comportamento, alucinações, acidentes vasculares cerebrais e convulsões. Nos vasos sanguíneos, as complicações possíveis incluem anemia, maior risco de sangramentos e vasculite.
A lista do ministério segue pelos pulmões, com a pleurisia — inflamação dos tecidos que revestem os pulmões e a caixa torácica, capaz de tornar a respiração muito dolorosa —, e pelo coração, onde a inflamação do músculo cardíaco e das artérias eleva de forma significativa as chances de infarto.
Não é a primeira vez neste ano que a agência libera um medicamento que atua sobre o sistema imunológico em uma doença autoimune: em março, autorizou o Tzield para retardar o diabetes tipo 1 em crianças.