O site da Ancine (Agência Nacional do Cinema) saiu do ar na tarde desta segunda-feira (12 de outubro), depois de um ataque hacker que transformou a página da agência federal em mural de propaganda política e de ofensa regional.
No lugar do conteúdo institucional, os invasores publicaram uma mensagem intitulada “Nordestinos burros”, declarações de apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, e ameaças às universidades públicas.
O que a página invadida exibia
No topo da tela que substituiu o conteúdo original aparecia a frase em inglês “You’ve been hacked” — “você foi hackeado”, em tradução livre. Abaixo, a imagem de um homem de óculos escuros vestindo a camisa da seleção brasileira e uma representação do mapa do Brasil pintada de vermelho.
Segundo a Gazeta do Povo, que recuperou uma captura da página no Wayback Machine, o alvo não foi a página inicial da agência, mas o painel de acesso ao Sistema Ancine Digital (SAD). O invasor inseriu no endereço de controle de acesso uma página chamada “22.html”, referência, de acordo com o jornal, ao número de urna de Flávio Bolsonaro.
O texto reunia as frases “Todo o nosso apoio à direita conservadora. Deus, pátria e família!” e “Glória ao Sul, aos EUA e a Israel!”. Os autores da invasão também afirmaram que, se Flávio Bolsonaro não vencer a eleição, o resultado terá sido manipulado pela China. A mensagem se encerrava com o apelo “Help me EUA” (“socorro, EUA”).
A captura recuperada pela Gazeta do Povo traz ainda ataques ao presidente Lula, com a expressão “Lula Ladrão”, a frase de que “as universidades públicas irão queimar” e uma mensagem sobre o patrocínio do filme do Bolsonaro, que teria “estava certo” enquanto o “do Lula Ladrão foi por fora”. Ao fundo, de acordo com o jornal, aparece Flávio Bolsonaro fazendo o gesto de “arminha” com as mãos e, ao lado dele, a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) segurando um chicote, em referência à forma como ela comemorou os resultados do primeiro turno, sobre um mapa da região Nordeste pintado de vermelho.
O conjunto articula três alvos recorrentes do discurso eleitoral mais radicalizado — o eleitorado do Nordeste, as universidades federais e a hipótese de fraude no resultado das urnas — e os coloca dentro de um ambiente digital de uma agência do governo federal, usado pelo setor audiovisual.
O episódio também não é isolado no calendário eleitoral: em julho de 2025, uma invasão a sistemas do Banco Central e da B3 levou o vice-presidente Geraldo Alckmin a classificar ataques do tipo como ameaça à economia do país.
Agência em silêncio e site fora do ar
Procurada por e-mail, a assessoria da Ancine não respondeu ao Poder360 até a publicação da reportagem que registrou a invasão. Não há, até agora, informação oficial sobre como os invasores obtiveram acesso à página, se houve comprometimento de bases de dados da agência ou qual o prazo para o restabelecimento do serviço.
Enquanto o endereço estiver indisponível, ficam fora do ar também as consultas públicas que passam pelo portal — do acompanhamento de projetos audiovisuais aos documentos normativos da agência.
A Gazeta do Povo, em reportagem publicada na manhã desta terça-feira (13), informou ter procurado os gabinetes de Flávio Bolsonaro e de Júlia Zanatta e a Presidência da República, sem manifestação até aquele momento.
Não é a primeira vez que a agência lida com uma invasão neste ano. Em junho de 2026, segundo a própria Ancine, outro ataque expôs uma base de dados de pessoas e empresas até 2019, com nome, CPF ou CNPJ e informações de contato. A agência classificou o incidente como de baixo risco, por considerar a base “estática e desatualizada”, afirmou que nenhum dado protegido por sigilo fiscal foi exposto e comunicou o caso ao Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo (CTIR.Gov), à Receita Federal e à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Um ataque com endereço eleitoral
A escolha do conteúdo exibido coloca o caso num terreno sensível: a página de um órgão público passou a veicular apoio explícito a um candidato a menos de três semanas do segundo turno, além de antecipar a narrativa de manipulação do resultado. É o tipo de uso que extrapola a discussão técnica de segurança digital e entra na seara eleitoral.