Ciência

Nobel de Física premia Francis Halzen por caçar neutrinos no gelo da Antártida

Belga radicado nos EUA leva sozinho os R$ 6,2 milhões, algo que não acontecia na física desde 1992
Iceberg esculpido na Antártida simboliza a descoberta premiada com o Nobel de Física 2026

O físico belga Francis Halzen levou o Nobel de Física de 2026, anunciado na manhã desta terça-feira (6), por provar que um quilômetro cúbico de gelo antártico pode funcionar como telescópio.

Nascido em Tienen, na Bélgica, em 23 de março de 1944, Halzen tem 82 anos e doutorou-se em 1969 pela KU Leuven antes de se radicar nos Estados Unidos, onde é professor da Universidade de Wisconsin-Madison. Ele foi premiado pelas contribuições decisivas ao Observatório de Neutrinos IceCube e pela descoberta de neutrinos de alta energia produzidos fora do Sistema Solar.

Halzen recebe sozinho os 12 milhões de coroas suecas (R$ 6,2 milhões) do prêmio — valor 1 milhão de coroas suecas acima do de 2025 em cada categoria, reajuste que marca os 125 anos do Nobel.

Uma ideia que levou 23 anos para sair do papel

Em 1988, Halzen propôs algo que boa parte de seus colegas considerava improvável: transformar o gelo do Polo Sul em detector de partículas. Neutrinos quase não interagem com a matéria — trilhões deles atravessam a Terra e o corpo humano continuamente sem produzir qualquer efeito perceptível.

Em casos raríssimos, um deles colide com o núcleo de um átomo. A interação gera outras partículas e um clarão conhecido como radiação Cherenkov. Quanto maior o volume de matéria transparente disponível, maior a chance de registrar esse sinal.

Daí a aposta na Antártida. Concluído em 2011, o IceCube distribuiu milhares de sensores de luz em profundidade dentro de um quilômetro cúbico de gelo. A partir do brilho captado, os pesquisadores reconstroem a direção e a energia da partícula que passou.

Mensageiros que não desviam do caminho

O ganho científico está na rota limpa dos neutrinos. Diferentemente de outras partículas, eles não são desviados por campos magnéticos nem perdem energia em longas distâncias — então apontam para o endereço onde foram produzidos e carregam informação sobre esse ambiente.

Com o IceCube, os pesquisadores identificaram os primeiros neutrinos cósmicos de alta energia e demonstraram que parte deles vinha de muito além do Sistema Solar. Nasceu ali a astronomia de neutrinos, uma forma de observar o Universo que não depende da luz.

Para o presidente do Comitê Nobel de Física, Mark Pearce, Halzen “liderou uma equipe internacional de pesquisadores e engenheiros que nos proporcionou um instrumento fantástico”, e “sua tenacidade e visão científica abriram caminho para um novo tipo de astronomia”.

Prêmio individual, raridade na física

Halzen é o primeiro físico a receber a láurea sem dividi-la desde 1992, quando o francês Georges Charpak foi premiado pela invenção de detectores de partículas. Nas três décadas seguintes, o prêmio sempre foi repartido entre dois ou três nomes — retrato de uma pesquisa cada vez mais coletiva. Em 2025, foram três laureados: o britânico John Clarke, o francês Michel H. Devoret e o americano John M. Martinis, pelos efeitos quânticos em circuitos elétricos.

Esse é justamente o ponto que parte da comunidade científica critica no formato: o testamento de Alfred Nobel proíbe dividir o valor entre mais de três pessoas, mesmo quando a descoberta nasce de experimentos de grande escala, como o próprio IceCube.

O observatório não parou. Em 2026 foi concluída uma grande atualização do equipamento, que ampliou sua capacidade de estudar neutrinos e os chamados aceleradores cósmicos — ambientes capazes de impulsionar partículas a energias muito superiores às de qualquer acelerador construído na Terra, e cujo funcionamento ainda é um enigma.

O anúncio abre a sequência de láureas da semana. Um dia antes, a optogenética levou o Nobel de Medicina 2026 a Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, pela técnica que revela como os neurônios moldam memórias, sentimentos e comportamentos no cérebro vivo. O calendário segue com Química nesta quarta-feira (7), Literatura na quinta-feira (8) e Paz na sexta-feira (9); o prêmio de Economia fecha o calendário na próxima segunda-feira (12).