Economia

Rotativo do cartão bate recorde e Lula discute limitar cartão de crédito por pessoa

Contratações chegam a R$ 311 bilhões até agosto, com juro de 445% ao ano e 40 milhões de inadimplentes
Sede do Banco Central do Brasil simboliza decisão sobre juros do rotativo do cartão de crédito.

A linha de crédito mais cara do país nunca foi tão usada. As contratações do rotativo do cartão de crédito somaram R$ 311 bilhões nos oito primeiros meses de 2026, recorde para o período, segundo o Banco Central.

O salto aparece no momento em que Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quinta-feira (1º), estar discutindo com o próprio BC a proibição de que uma mesma pessoa tenha mais de um cartão de crédito — ideia apresentada como freio ao endividamento.

Recorde alcançado antes do fim do ano

No mesmo intervalo de 2025, o volume contratado tinha sido de R$ 266 bilhões. A diferença de R$ 45 bilhões em apenas oito meses coloca 2026 a caminho de superar o ano passado inteiro, quando as concessões chegaram a R$ 403 bilhões.

O rotativo já havia beirado R$ 400 bilhões em concessões ao longo de todo o ano de 2025 — volume que a parcial deste ano ameaça ultrapassar bem antes de dezembro.

Um juro de três dígitos

Acionada por quem não consegue quitar o valor integral da fatura no vencimento, a modalidade cobrava 445% ao ano em agosto, a maior taxa do mercado financeiro. Para efeito de comparação, o crédito consignado varia de cerca de 24% a 56% ao ano.

A conta reaparece na inadimplência: 63,5% do que foi emprestado nessa linha não voltou — mais de R$ 60 a cada R$ 100. Em janeiro, cerca de 40 milhões de brasileiros tinham dívida no rotativo, dentro de um universo de 101 milhões de usuários de cartão, quase metade da população.

Em julho, o presidente do Banco Central chamou o juro do cartão brasileiro de uma ‘jabuticaba’, ao explicar por que a taxa reage tão pouco às mudanças da Selic.

Do diagnóstico à proposta

Em março, Gabriel Galípolo afirmou que parte da população passou a tratar linhas de uso emergencial, como o rotativo, quase como extensão da renda — algo que, para ele, exige uma “discussão estrutural” capaz de “produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”.

A resposta do governo até aqui foi oferecer crédito mais barato, em vez de restringir o mais caro. O consignado para trabalhadores do setor privado, lançado no ano passado, liberou R$ 130 bilhões até junho; quem quiser pode dar o FGTS como garantia, movimento sobre o qual entidades de defesa do consumidor pedem cautela.

Essa aposta no consignado já havia levado à criação de punições para bancos que cobrassem juros abusivos na modalidade.

Enquanto o desenho da restrição a múltiplos cartões não sai do papel, a recomendação de analistas permanece a mesma: pagar a fatura integralmente todos os meses e tratar o rotativo como último recurso. A fala do presidente chega em plena corrida eleitoral, o que tende a acelerar o debate.