Meio ambiente

Oceanos acumulam calor recorde e nível do mar sobe mais rápido, aponta Copernicus

Energia extra absorvida pela água em 2025 equivale a 40 vezes tudo o que o mundo consumiu no ano; acidez do mar cresceu 17% em quatro décadas
Mapa-múndi dos oceanos com tons avermelhados retratando o recorde de calor nos oceanos e a subida do nível do mar

O oceano nunca esteve tão quente por dentro. O calor acumulado na água do mar chegou em 2025 ao maior nível já registrado, segundo a décima edição do relatório anual do serviço marinho do observatório europeu Copernicus.

Só no ano passado, os mares absorveram 23 zettajoules de energia adicional — cerca de 40 vezes tudo o que o mundo consumiu em energia em 2025. O acúmulo vem acelerando desde 1960.

O levantamento cruza dados de satélites, medições feitas diretamente no mar e modelos científicos, com a participação de 125 pesquisadores de diferentes países.

O calor que não aparece na superfície

O recorde não se refere à temperatura da superfície do mar, aquela usada para acompanhar ondas de calor marinhas. Os cientistas calculam quanta energia fica armazenada nas camadas do oceano — uma medida que revela mudanças mais profundas e persistentes.

A diferença ficou clara em agosto, quando a temperatura superficial dos oceanos bateu recorde histórico ao chegar a 21,1°C: o aquecimento de superfície é o sintoma visível, enquanto o calor estocado em profundidade é o que se acumula por décadas.

Esse estoque de energia pressiona outras duas variáveis. Entre 1999 e 2025, o nível médio global do mar subiu 3,8 milímetros por ano; de 2012 para cá, a taxa chegou a 4,2 milímetros por ano. No intervalo entre 1985 e 2025, a água ficou cerca de 17% mais ácida, resultado da absorção de dióxido de carbono da atmosfera.

O sinal já vinha sendo captado por outro levantamento: em março, um relatório da ONU apontou que os oceanos absorveram 91% do excesso de energia retido pelo planeta em 2025, com a taxa de aquecimento marinho mais que dobrando em relação ao período de 1960 a 2005.

Mediterrâneo aquece até 40 metros de profundidade

Em 2024, algumas ondas de calor marinhas no Mediterrâneo e no Mar Negro duraram mais de 30 dias, com temperaturas até 4,6°C acima da média em episódios específicos. Parte desse calor permanecia a cerca de 40 metros abaixo da superfície.

Foi o ano com mais dias de onda de calor marinha nas últimas duas décadas na região, com média 1,23°C acima da referência de 1982 a 2024. O fenômeno tem antecedente direto: um estudo da World Weather Attribution já havia atribuído ao aquecimento global altas de até 6°C na temperatura do mar em áreas da Europa.

Mesma tendência, impactos desiguais

As mudanças não se distribuem por igual. No Mediterrâneo ocidental, a elevação do nível do mar acelera desde o início dos anos 2000; na porção oriental, o comportamento foi mais irregular, com aceleração recente mais acentuada. Para Carlos García-Soto, pesquisador do CSIC, na Espanha, a distinção importa: uma tendência global não define, sozinha, o impacto em cada costa.

A tempestade Louis ilustra o ponto. Em fevereiro de 2024, ondas passaram de oito metros na costa atlântica espanhola, com transtornos no transporte, cortes de energia, problemas em dois portos e uma morte. Em Langosteira, no noroeste, o episódio durou cerca de 33 horas; em Tarragona, no Mediterrâneo, foi mais curto e mais intenso.

Na Finlândia, em novembro de 2024, ventos persistentes empurraram a água para longe da costa e derrubaram o nível do mar em 153 centímetros na Baía de Bótnia, o menor valor já registrado ali. As balsas pararam por 18 horas, mas a previsão antecipou a queda em três a quatro dias.

Ilhas e polos na linha de frente

No Mar de Barents, o gelo marinho encolheu 70% desde 1982. Na Antártida, o nível excepcionalmente baixo de gelo em 2022 coincidiu com um fracasso reprodutivo em grande escala de colônias de pinguins-imperadores. Nos pequenos países insulares, todas as áreas marítimas analisadas aqueceram desde 1960, e quase 28% dessas águas abrigam recifes de coral ameaçados.

“O oceano está se transformando diante de nossos olhos: aquecimento, elevação do nível do mar e degradação dos ecossistemas são sinais interligados de uma mudança significativa e de longo prazo”, afirmou Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, responsável pelo serviço marinho europeu.