Um surto de dengue no condado de Hillsborough, na Flórida, acumulou 95 casos desde julho de 2026 e marca o avanço da doença nos EUA, país onde ela ainda é tratada como problema de quem viaja para os trópicos. Em 8 de setembro, uma idosa morreu na região.
A família afirma que os médicos atribuíram a morte à dengue, versão que o Departamento de Saúde da Flórida ainda não confirmou. O caso foi noticiado pelo jornal Tampa Bay Times e integra o aglomerado que levou o órgão local a emitir, em agosto, um alerta sobre doenças transmitidas por mosquitos.
Por que o diagnóstico chega tarde
O que torna o quadro perigoso não é a novidade do vírus, mas a falta de familiaridade de quem atende. Em regiões dos EUA onde a dengue é pouco comum, ela é facilmente confundida com gripe ou covid-19, escreve o infectologista Andrés Henao, professor de Medicina e Doenças Infecciosas da Universidade de Colorado Anschutz, em análise publicada pela The Conversation.
A doença também esconde a própria circulação. Cerca de 3 em cada 4 pessoas infectadas nunca se sentem doentes, e os 25% que adoecem só apresentam sintomas de 4 a 10 dias após a picada — febre alta repentina, dor de cabeça forte, dor atrás dos olhos e dores profundas em músculos, articulações e ossos, o que nos EUA rendeu à dengue o apelido de “febre quebra-ossos”.
O vetor principal é o Aedes aegypti, espécie comum na Flórida, que se reproduz em volumes mínimos de água parada, como uma tampa de garrafa, e pica durante o dia. Como existem quatro cepas do vírus e a imunidade adquirida protege apenas contra a linhagem já enfrentada, uma segunda infecção por tipo diferente eleva o risco de forma grave.
A virada que engana o paciente
Cerca de 1 em cada 20 pacientes evolui para dengue grave, justamente quando a febre começa a baixar, entre o terceiro e o sétimo dia — momento em que a família costuma supor que o pior passou. Vasos sanguíneos passam a vazar líquido, a pressão despenca e podem ocorrer hemorragias e danos a órgãos. Sem tratamento, até 10% morrem; com atendimento hospitalar imediato, menos de 1%.
Recorde global e expansão para o norte
A pressão não é local. A Organização Mundial da Saúde contabilizou mais de 14 milhões de casos de dengue em 2024, o pior ano já registrado, em cerca de 100 países — alta de 2.600% sobre os 505 mil casos de 2000. Temperaturas mais altas, urbanização acelerada e viagens internacionais empurram mosquito e vírus para lugares onde não eram problema.
No Brasil, cientistas já registram o mesmo fenômeno: calor mais intenso e chuvas irregulares vêm ampliando o alcance de vírus transmitidos por mosquitos, com casos inéditos de febre do Nilo Ocidental confirmados em São Paulo neste ano.
A resposta farmacológica segue limitada. Não há antiviral que cure a dengue — o tratamento é suporte, com repouso, líquidos e paracetamol, evitando aspirina e anti-inflamatórios que aumentam o risco de sangramento. Enquanto nos EUA a vacina contra dengue segue restrita a grupos bem específicos, como crianças de áreas de alta transmissão que já tiveram a doença, no Brasil um estudo publicado neste ano mostrou que uma única dose do imunizante do Butantan mantém proteção contra as formas graves por até cinco anos.
A maioria dos casos norte-americanos ainda vem de fora: os CDCs relataram quase 1.900 infecções ligadas a viagens só em 2023. Mas a transmissão local já se firmou em Porto Rico e nas Ilhas Virgens Americanas, e Miami-Dade registrou mais de 300 infecções adquiridas no próprio território entre 2010 e 2024, com episódios também no Texas, na Califórnia, no Arizona e no Havaí.