Meio ambiente

ONU aprova resolução por ação urgente contra a elevação do nível do mar

Texto cobra corte de emissões e financiamento a países vulneráveis; nações insulares alertam para o risco desde 1989
Globo da ONU com oceanos destacados representa resolução urgente contra a elevação do nível do mar

A ONU aprovou uma resolução que cobra medidas mais duras contra a elevação do nível do mar, avanço silencioso que já ameaça apagar territórios inteiros do mapa.

O pano de fundo é um recorde: em 2024, a média global dos oceanos subiu quase seis milímetros, o maior incremento anual já registrado. Sem ação drástica, a projeção é de um metro ou mais até o fim do século.

O custo que não cabe em milímetros

“O aumento do nível do mar se mede em milímetros, mas seu custo se mede em milhões de vidas destroçadas, comunidades desenraizadas e futuros roubados”, afirmou o secretário-geral António Guterres. “Não podemos permitir que países e culturas desapareçam sob as ondas”, acrescentou.

A cobrança não nasceu agora. Os pequenos Estados insulares alertam para a ameaça desde 1989 — quase quatro décadas de aviso até o tema render um texto com esse tom de urgência. E o alerta deixou de ser hipótese: um país insular do Pacífico já vê parte de seu território desaparecer sob as ondas, exatamente o cenário que a resolução tenta impedir em outras ilhas.

Na prática, o documento aponta para duas frentes conhecidas e travadas: reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que aquecem e dilatam os oceanos, e garantir financiamento climático aos países mais expostos, que costumam ser também os que menos contribuíram para o problema.

Quando a enchente rara vira rotina

O risco não depende de cenários extremos. Projeções citadas no debate indicam que inundações capazes de ocorrer uma vez a cada 50 anos nos níveis atuais passariam a acontecer a cada três ou quatro anos caso o mar suba apenas meio metro.

Esse encurtamento de intervalo já tem lastro científico. Um estudo publicado na Nature Climate Change mostrou que a ação humana quadruplicou a frequência de inundações costeiras extremas desde 1900, o que ajuda a explicar por que eventos hoje raros tendem a virar parte do calendário.

Para Tom Mortlock, analista sênior de pesquisa sobre catástrofes da Aon, mesmo aumentos modestos implicam riscos graves — e parte da resposta pode vir da própria natureza. Soluções como os manguezais “podem reduzir o risco costeiro, mas também podem enfrentar o problema central que temos com a mudança climática, que é a captura e a mitigação do carbono”, disse.

Enquanto a diplomacia negocia prazos, a medição não espera: levantamentos recentes apontam novo recorde do nível médio dos mares, com 23 centímetros acumulados desde 1901.