Bater em criança pequena continua sendo lido por parte dos pais e cuidadores brasileiros como forma de disciplina — e não como violência. É o que aponta um diagnóstico do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgado nesta quinta-feira (24).
O levantamento ouviu 214 pessoas em comunidades de três capitais e concentrou o olhar na primeira infância, faixa que vai até os 6 anos de idade.
A fronteira que as famílias inventam entre o tapa e o espancamento
O que o estudo encontrou não foi a defesa aberta da agressão, mas uma régua própria: de um lado, a palmada tida como educativa; de outro, o espancamento, este sim reconhecido como errado. “As famílias sequer consideram o tapa ou a chinelada como violência. Pelo contrário, elas distinguem a palmada do espancamento que elas acham, de fato, errado”, afirma Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil.
A fala de um pai ouvido no Rio de Janeiro resume a lógica registrada pelos pesquisadores: “Existe uma forma de bater educando, que foi a que eu fui criado. E existe o espancamento mesmo.”
Uma lei de 12 anos que não chegou às casas
A Lei Menino Bernardo, conhecida como Lei da Palmada, completa 12 anos e integra o Estatuto da Criança e do Adolescente, em vigor desde 1990. Segundo a pesquisadora, o problema não está no texto legal. “O que o estudo mostra é que essa lei é pouco conhecida pelas famílias e é interpretada a partir de normas sociais que ainda legitimam a violência como forma de educar”, diz.
Foram ouvidos pais, cuidadores e lideranças comunitárias em territórios marcados por vulnerabilidade e violência: 123 pessoas no Rio de Janeiro, nas regiões da Grande Pavuna e da Grande Jacarepaguá; 37 no Recife, no bairro do Ibura; e 54 em Manaus, na Colônia Antônio Aleixo e na comunidade Parque das Tribos.
Um levantamento do Instituto Infinis com a Quaest já havia flagrado contraste parecido: 91% dos brasileiros dizem defender o diálogo na criação dos filhos, mas quase metade admite já ter dado tapas.
Os números oficiais acompanham o diagnóstico. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam mais de 60 mil registros de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes no ano passado — 106% a mais do que em 2024.
Falta repertório, não intenção
Entre as conclusões do estudo está a ausência de alternativas: muitos pais agem no calor da birra e depois se arrependem. O Unicef também identificou despreparo dos profissionais da rede de proteção para orientar famílias e dificuldade de os serviços públicos chegarem até elas. Como a criação ainda é tratada como assunto privado, a vizinhança tende a se calar.
Para a psicóloga infantil Mara Gomes, que atua em Brasília, o desencontro começa na biologia. “O cérebro ainda está amadurecendo, principalmente os sistemas envolvidos em inibição de impulsos, planejamento, flexibilidade cognitiva e autorregulação emocional”, explicou em entrevista à Agência Brasil. A criança sente emoções intensas sem ter como administrá-las sozinha, e responde ao castigo físico com submissão ou agressividade. “Eu sempre digo aos pais de meninas: ‘você admitiria que a sua filha, na vida adulta, tenha um namorado que a agrida?’”, exemplifica.
Quatro passos no lugar da mão
A pedagoga Marília Paiva, que trabalha com neurociência aplicada à educação na Rede Fadelito, em São Paulo, propõe um roteiro para os momentos de desregulação: primeiro o adulto se regula, depois acolhe e valida o sentimento, em seguida estabelece o limite e só então ensina, quando a criança já está disponível para ouvir. “Onde o adulto enxerga uma birra, essa criança está assumindo esse comportamento, mas ela também está tentando se comunicar”, afirma. “A palmada não educa a criança e constrange, além de gerar medo.”
O estudo recomenda que governos migrem da reação aos casos para a prevenção, capacitem a rede de proteção e criem campanhas que ensinem a impor limites sem violência — e que essas campanhas dialoguem com a realidade dos territórios mais vulneráveis.