Saúde

Brasil lidera ranking de violência contra professores, aponta OCDE

Professoras relatam ameaças de morte e agressões físicas enquanto rede paulista soma milhares de licenças por saúde mental
Professora isolada em sala de aula vazia simboliza a violência contra professores no Brasil

Em março de 2023, a professora Marta foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos em uma escola municipal da Zona Oeste de São Paulo.

O caso não é isolado: o Brasil lidera o ranking da OCDE em violência contra professores, com 47% dos docentes relatando abuso verbal de alunos, quase três vezes a média mundial.

Agressões físicas, como a amputação parcial do dedo de uma professora paulistana, e mais de 42 mil licenças médicas por transtornos mentais em 2024 reforçam a gravidade do quadro.

Casos que expõem a rotina de medo dos professores

Marta, professora há 26 anos, soube da ameaça por meio da coordenadora da escola e passou a noite sozinha em uma delegacia registrando o boletim de ocorrência. Com medo de represálias, decidiu não representar criminalmente contra o agressor e chegou a pedir para trocar de quarto em casa, temendo ser atacada na própria residência.

Casos de violência física também se multiplicam. Em 2024, o professor Pedro levou um soco de um aluno autista ao tentar proteger colegas durante uma atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+. Já a docente Michelle Bernardes teve o dedo médio parcialmente decepado por uma porta ao conter a crise de um estudante com deficiência intelectual em sala de aula.

O que dizem os levantamentos

Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores mostra que 65% já sofreram algum tipo de agressão na escola — a mais comum é a violência verbal (71%), seguida da psicológica (58%), institucional (27%) e física (19%). Um estudo do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (Onve-UFF), com mais de 3 mil profissionais, aponta ainda que 61% dos professores da educação básica relatam ter sofrido perseguição, como censura, intimidação e assédio jurídico.

Saúde mental dos educadores sob pressão

A psicóloga Renata Paparelli, da PUC-SP, afirma que professores expostos à violência desenvolvem quadros de burnout, depressão e estresse pós-traumático. Só na rede estadual paulista, mais de 42 mil licenças por transtornos mentais foram concedidas em 2024, média de 115 por dia — número que já passa de 25 mil em 2025 até setembro.

A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo afirma promover a cultura de paz por meio de comissões de mediação de conflitos e parcerias formativas, além de ampliar em 144% o número de Auxiliares de Vida Escolar desde abril. Já a Secretaria de São José dos Campos, procurada sobre o caso da professora Michele Ramos — que registrou boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água —, não respondeu até a publicação.

Divergências sobre responsabilização

Entidades da categoria discordam sobre as soluções. O CPP defende atualizar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para responsabilizar alunos e corresponsabilizar pais, enquanto a Apeoesp vê a proposta com descrença e defende melhorar condições de trabalho e aproximar escola e comunidade. Enquanto o debate segue, uma pesquisa nacional mostrou que 88% dos gestores escolares associaram a proibição do celular em sala de aula à redução de conflitos e agressões, um contraponto de política pública ao quadro ainda enfrentado pelos professores.

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