O Discord segue permitindo, no Brasil, ferramentas nativas de compartilhamento de tela e vídeo em tempo real — mais de um mês após a ANPD determinar a suspensão imediata de todas as lives na plataforma.
A brecha foi encontrada pela GloboNews na seção “atividades” do app: dois recursos seguem funcionais para usuários brasileiros, sem bloqueio técnico ou geográfico aparente.
A falha mantém ativo o mesmo risco que motivou a suspensão: salas fechadas com vídeo ao vivo e moderação frágil, epicentro do caso que resultou na morte de uma adolescente de 13 anos.
Como a brecha funciona
As ferramentas identificadas operam dentro do próprio ecossistema de desenvolvedores do Discord, disponíveis na vitrine de “atividades” controlada pela empresa. Um dos recursos chega a exibir um aviso em inglês antes de ser ativado, no qual o usuário declara “entender que a função não tem a intenção de burlar restrições regionais ou bloqueio geográfico” e que “apenas adiciona suporte a compartilhamento de tela”. Na prática, o vídeo é transmitido normalmente dentro da sala.
Para o antropólogo da tecnologia David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, a brecha anula o efeito prático da medida regulatória. “As atividades são aplicativos que rodam dentro do próprio Discord, construídos com o kit de desenvolvimento da empresa e abertos em uma vitrine que ela controla”, afirma. Segundo ele, a combinação que preocupa autoridades — vídeo ao vivo, sala fechada, público selecionado e moderação fraca — se repete integralmente nas atividades de compartilhamento de tela protegidas por senha.
Nemer também alerta para um agravante: se o vídeo passa por servidores de terceiros, o próprio Discord perde ainda mais visibilidade sobre o conteúdo transmitido do que tinha nas lives originais.
ANPD cobra explicações
Procurada pela GloboNews, a ANPD confirmou que, a partir dos dados levantados pela reportagem, pediu esclarecimentos formais ao Discord. O órgão alertou que o descumprimento de medidas preventivas pode resultar em novas sanções, incluindo multa diária. A Superintendência de Fiscalização também negou o pedido de efeito suspensivo apresentado pela empresa em recurso administrativo, mantendo a suspensão das lives até que sejam comprovadas salvaguardas eficazes para crianças e adolescentes.
O caso que originou a suspensão
A ordem da ANPD, publicada em 12 de agosto, é resultado de uma investigação sobre a morte de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul, ocorrida no fim de julho durante uma transmissão ao vivo no Discord. Segundo a polícia, a jovem foi induzida ao suicídio por criminosos que mantinham contato com ela em servidores fechados, em um esquema batizado de “escravidão digital”, com ameaças, extorsões e desafios violentos. O processo aberto pela ANPD em 7 de agosto expôs as falhas da plataforma na proteção de menores e deu início à cadeia de medidas que a empresa segue descumprindo.
O caso originou a Operação Lívia, conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério da Justiça, que nesta semana apreendeu seis adolescentes suspeitos de integrar a rede criminosa em quatro estados e no Distrito Federal. A base legal da suspensão é o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), em vigor desde março, que exige das plataformas salvaguardas ativas contra abuso sexual, automutilação e violência, além de verificação de idade e controle parental.
Em 18 de agosto, o Discord suspendeu oficialmente as lives no Brasil para cumprir o prazo da ANPD, mas a investigação da GloboNews mostra que a medida deixou brechas técnicas que mantêm os mesmos riscos ativos. Procurada, a assessoria de imprensa do Discord não respondeu até a publicação da reportagem sobre por que as ferramentas de vídeo continuam acessíveis no país.