A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou, em 5 de agosto, a primeira vacina de mRNA contra a gripe sazonal para adultos com 50 anos ou mais. O imunizante promete proteção superior às vacinas convencionais contra influenza.
A aprovação confirma o avanço de uma tecnologia que ganhou escala global durante a pandemia de Covid-19 e que agora começa a ultrapassar o campo das vacinas, abrindo caminho para tratamentos de doenças raras, câncer e distúrbios genéticos.
Como funciona o mRNA como remédio
Um medicamento de mRNA é formado por dois componentes: moléculas de RNA mensageiro, que carregam a receita da proteína desejada, e partículas lipídicas que as revestem e protegem contra degradação. Essas nanopartículas, com cerca de 100 nanômetros de diâmetro, entregam o material genético diretamente às células-alvo.
Uma vez dentro da célula, o mRNA instrui o organismo a produzir a proteína necessária para o efeito terapêutico. Nas vacinas contra a Covid-19, por exemplo, essa proteína é uma versão inofensiva da spike do coronavírus, usada para treinar o sistema imunológico.
Vantagens e limites da tecnologia
Diferente dos remédios tradicionais, medicamentos de mRNA são altamente programáveis: basta alterar o molde de DNA para produzir uma substância diferente, o que reduz custos e riscos no desenvolvimento. Mas a tecnologia ainda esbarra em limitações — o mRNA terapêutico dura cerca de um dia dentro das células, o que restringe seu uso a tratamentos que exigem presença curta da proteína no organismo.
Para evitar que o próprio sistema imunológico rejeite o mRNA como se fosse um vírus invasor, cientistas substituem um dos blocos químicos da molécula — a uridina — por variantes como a pseudouridina. A descoberta rendeu aos cientistas responsáveis o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2023 e é usada nas vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna.
O potencial do mRNA já avança para fora do campo das vacinas. Pesquisadores testam o uso da molécula para carregar as proteínas de edição genética do CRISPR-Cas9 e desativar genes causadores de doenças raras, como a amiloidose hereditária por transtiretina — condição em que proteínas mal dobradas se acumulam no coração e nos nervos. Como a proteína-alvo é produzida no fígado, órgão por onde passam a maioria dos medicamentos, a entrega do material genético é facilitada.
A aprovação da vacina contra a gripe, desenvolvida pela Moderna, reduziu em 27% os casos da doença em estudo com 40 mil participantes — resultado concreto do salto tecnológico descrito por pesquisadores da área. Outra frente em exploração é a oncologia: um estudo da Universidade da Flórida já eliminou tumores resistentes a tratamentos convencionais em camundongos usando vacinas experimentais de RNA mensageiro.
Para avançar além das vacinas, cientistas ainda precisam prolongar o tempo de ação do mRNA no organismo e reduzir impurezas da fabricação, como o RNA de fita dupla — subproduto que pode desencadear respostas imunes indesejadas em tratamentos que não sejam vacinas. Algoritmos computacionais para otimizar sequências genéticas e novas versões de enzimas de produção estão entre as apostas para os próximos anos.