A conferência preparatória da COP30, realizada em Belém, terminou sem consenso sobre os principais impasses climáticos. O evento, que reuniu delegados de 200 países, não avançou em temas como financiamento climático, metas de redução de emissões e proteção das florestas tropicais.
As negociações frustraram expectativas e aumentaram a pressão sobre o Brasil, anfitrião da próxima conferência, marcada para 2025.
Principais impasses permanecem sem solução
Durante duas semanas, representantes de cerca de 200 países discutiram documentos que servirão de base para a COP30, mas não conseguiram superar divergências centrais. Entre os temas mais críticos está o financiamento climático para países em desenvolvimento, cuja meta de US$ 1,3 trilhão por ano até 2030 segue sem mecanismos claros de implementação. O texto final da conferência prevê apenas US$ 300 bilhões anuais, valor considerado insuficiente por essas nações.
Outro ponto de tensão foi a definição de metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. Não houve acordo entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quanto a responsabilidades e prazos, mantendo o tema controverso. A proteção das florestas tropicais, especialmente da Amazônia, também gerou impasses sobre estratégias e compromissos, com debates sobre soberania nacional e cooperação internacional.
Em relação à adaptação às mudanças climáticas, os países reduziram mais de 500 propostas para 100 indicadores práticos do Objetivo Global de Adaptação (GGA), mas o financiamento para adaptação segue indefinido. A transparência e o monitoramento das ações climáticas também não avançaram, dificultando a confiança entre as partes.
Combustíveis fósseis e transição energética
A discussão sobre a eliminação dos combustíveis fósseis encontrou resistência, especialmente de países produtores de petróleo. O documento final optou por uma linguagem mais branda, propondo “transition away from” (transição para longe), em vez de “phase out” (eliminação), embora represente um avanço histórico ao reconhecer a necessidade de abandonar esses combustíveis desde 1994.
O texto foca na transição para sistemas energéticos de baixas emissões, mas não estabelece metas gerais, cabendo a cada país definir seus compromissos nacionais.
O papel do Brasil e expectativas para a COP30
O Brasil, anfitrião da próxima conferência, chegou a Bonn com alta expectativa, mas especialistas apontam que sua atuação inicial ficou aquém do esperado. Camila Jardim, do Greenpeace Brasil, afirmou que, apesar do esforço diplomático, “impasses geopolíticos e decisões lentas mostram que a diplomacia climática precisa ir além da boa vontade”. Já Claudio Angelo, do Observatório do Clima, avaliou que houve avanços concretos, especialmente em adaptação e transição justa, destacando que “essa foi a primeira prova real da presidência brasileira, e ela não foi reprovada”.
Na cúpula, a presidência brasileira apresentou a quarta carta da COP30, com uma agenda estruturada em seis eixos e 30 ações abrangendo agricultura, transporte, infraestrutura, biodiversidade e oceanos. A estratégia busca envolver governos, sociedade civil e setor privado para enfrentar a crise climática.
Especialistas apontam que os resultados limitados de Bonn aumentam a pressão sobre a COP30, que terá de enfrentar questões travadas há anos. Alexandre Prado, do WWF-Brasil, destaca que o Brasil precisa liderar discussões sobre financiamento e adaptação, mas cita desafios como a saída dos EUA e a redução de ajuda internacional na Europa. “Se não houver um mapa claro, corre-se o risco de travar a COP como um todo ou comprometer parte importante dos resultados”, alerta.
Organizações ambientais esperam que o Brasil una habilidade diplomática à visão estratégica para pressionar por resultados concretos e catalisar a ambição climática global.