O Brasil emitiu 21 milhões de toneladas de metano em 2024 sem apresentar trajetória de queda contínua, aponta estudo divulgado nesta terça-feira (18) pelo Observatório do Clima. O volume crescente afasta o país da meta de cortar 30% das emissões do gás até 2030, firmada na COP26.
Batizado de SEEG Soluções, o levantamento reúne 37 propostas para reverter o cenário nos setores que mais poluem: agropecuária, resíduos, uso da terra e energia.
Agropecuária concentra três quartos das emissões
A pecuária é a maior fonte poluidora do país: em 2024, o setor agropecuário emitiu 15,7 milhões de toneladas de metano, o equivalente a 75,8% do total nacional. A criação de gado responde por mais de 90% desse volume. Para reverter o quadro, o estudo elenca 15 recomendações, como ordenamento territorial, assistência técnica a produtores e mudanças no manejo de rebanhos e dejetos animais.
O setor de resíduos aparece na sequência, com 16% das emissões (3,3 milhões de toneladas), originadas majoritariamente de aterros sanitários e lixões. As propostas incluem o encerramento de lixões ativos, a ampliação da coleta seletiva e o aproveitamento energético do biogás gerado pela decomposição do lixo orgânico.
Queimadas e combustíveis fósseis completam o quadro
A mudança no uso da terra e as florestas, impulsionada sobretudo por incêndios em vegetação nativa, responde por 5,5% das emissões. Já o setor de energia fecha a lista com 2,6%, puxado pela queima de lenha em residências e pela produção de combustíveis fósseis.
“Cada emissão de metano requer uma resposta específica”, afirma Ingrid Graces, pesquisadora do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), responsável pelas cinco propostas do setor energético. “Quem cozinha com lenha porque não tem acesso a outra fonte de energia precisa de política pública. Já as emissões da cadeia de combustíveis fósseis vêm de operação industrial, e ali cabe responsabilizar quem lucra com a atividade”.
Pressão internacional e histórico de alta
O lançamento do SEEG Soluções ocorre dois meses depois de a ONU cobrar dos governos ações mais rápidas contra o metano, apontado pela entidade como uma das formas mais baratas e eficazes de conter o aquecimento global no curto prazo. Em um período de 20 anos, o potencial de aquecimento do gás é cerca de 80 vezes maior que o do dióxido de carbono.
Em agosto do ano passado, o mesmo Observatório do Clima já havia documentado alta de 6% nas emissões de metano entre 2019 e 2023 — trajetória que o novo levantamento confirma não ter sido revertida desde então.
O cenário também contrasta com metas assumidas pelo governo em outras frentes. O Plano Clima lançado em março prevê que o setor de uso da terra se torne sumidouro líquido de carbono até 2035, mas, no caso do metano, o país ainda não conseguiu sequer estabilizar os volumes emitidos. Segundo o Observatório do Clima, a eficácia das 37 medidas propostas dependerá da adesão de governos, produtores rurais e municípios às ações sugeridas.