O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou nesta terça-feira (11) um vídeo afirmando que o domínio americano em toda a América Latina “nunca mais será questionado”.
A publicação cita a captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, como o exemplo mais recente da aplicação da Doutrina Monroe no continente.
A divulgação ocorre em meio ao apoio declarado de Washington a governos de direita na região, da Argentina à Colômbia.
A publicação foi feita em um momento em que os Estados Unidos têm reforçado o apoio a lideranças de direita na América Latina. Donald Trump apoiou aliados de Javier Milei nas eleições legislativas da Argentina em 2025 e também Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia neste ano.
A captura de Maduro como vitrine da doutrina
No vídeo, narrado pelo embaixador americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, o Departamento de Estado apresenta a operação que capturou Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, como o exemplo mais recente da aplicação da Doutrina Monroe. Segundo a gravação, a ação enviou um “forte sinal a todo o hemisfério”. Maduro foi levado para os Estados Unidos para responder a acusações de narcoterrorismo e está preso em uma penitenciária de Nova York.
A publicação apresenta a prisão como parte de uma política aplicada desde o século 19, criada pelo então presidente James Monroe. O que começou como um alerta à Europa, segundo o Departamento de Estado, evoluiu para uma política de domínio regional que segue como a “pedra angular” da estratégia americana no hemisfério.
Panamá e Cuba entram no histórico oficial
O vídeo cita episódios que marcaram a aplicação da doutrina ao longo do século 20. Em 1903, os EUA teriam apoiado a independência do Panamá em relação à Colômbia para garantir um acordo de construção, operação e defesa do Canal do Panamá. Um ano depois, o presidente Theodore Roosevelt acrescentou seu próprio corolário à doutrina: os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de qualquer nação latino-americana que demonstrasse incapacidade de cumprir obrigações internacionais. A postura ficou conhecida como a do “grande porrete” — a ameaça de intervenção como ferramenta permanente de política externa. Já em 1962, o então presidente John F. Kennedy recorreu à Doutrina Monroe após a descoberta de mísseis soviéticos em Cuba, durante a crise dos mísseis.
O histórico divulgado pelo governo americano, no entanto, deixa de fora as intervenções dos Estados Unidos que ajudaram a instalar ditaduras em diversos países latino-americanos ao longo do século 20.
Estratégia militar traçada em dezembro de 2025
O vídeo reforça uma estratégia já anunciada pela Casa Branca em dezembro de 2025, quando o governo Trump divulgou um documento de política externa que passou a priorizar a América Latina. Segundo o texto, os EUA vão reajustar a presença militar em outros países para enfrentar “ameaças urgentes” no Hemisfério Ocidental, com base em três elementos principais ligados à segurança nacional.
A estratégia afirma ainda que os Estados Unidos buscam “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a predominância americana no Hemisfério Ocidental”, com uma “retomada poderosa” da influência sobre a região. O alvo declarado é conter o avanço da China no continente. A combinação dos nomes Monroe e Trump chegou a gerar até um apelido para essa orientação: a “Doutrina Donroe”.
A captura de Maduro, que o Departamento de Estado agora usa como exemplo máximo da doutrina em ação, já gerou desdobramentos: em março, EUA e Venezuela restabeleceram relações diplomáticas rompidas desde 2019, com Washington indicando a própria interina para conduzir a transição no país.
A rivalidade com Pequim também já havia aparecido antes: em maio, quando os EUA classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, a China respondeu invocando o princípio da “não interferência” — exatamente o tipo de avanço que o novo vídeo diz querer conter. O secretário de Defesa Pete Hegseth já havia declarado, em entrevista no ano passado, que os EUA precisavam recuperar a influência em seu “quintal”, que teria sido “perdida” para a China.
A pressão que culminou na prisão de Maduro foi construída ao longo de meses: já em agosto de 2025, o Brasil monitorava a movimentação de navios de guerra americanos no Caribe e avaliava as declarações de Trump como sinais de pressão sobre o regime venezuelano.