Autoridades do Brasil e do Paraguai apuram um esquema de diplomas falsos de mestrado e doutorado vendidos pela Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FIX), instituição sem registro no órgão paraguaio responsável pelo ensino superior.
Intermediários espalhados por vários estados brasileiros recrutavam alunos on-line prometendo a revalidação garantida dos títulos no Brasil, mas parte dos diplomas foi anulada depois que universidades identificaram documentação irregular.
A Universidade Federal de Alagoas já cancelou 218 diplomas ligados à FIX, e vítimas relatam prejuízos de até R$ 40 mil com o golpe.
Como o esquema atraía estudantes
Um dos intermediários identificados foi Radamese Lima, que se apresentava como professor e representante de uma assessoria acadêmica no Ceará. Segundo relatos, ele garantia que os diplomas seriam reconhecidos por universidades brasileiras e afirmava já ter obtido mais de cem validações.
As aulas ocorriam de forma on-line, em português, com encontros semanais. Para cumprir as exigências de validação de títulos estrangeiros no Brasil, os alunos eram orientados a viajar ao Paraguai — a maioria fez apenas uma passagem pelo país durante todo o curso.
Em uma operação num hotel de Assunção, promotores paraguaios encontraram cerca de 300 brasileiros participando de apresentações de teses. Muitos confirmaram que aquela havia sido a única viagem ao país desde o início dos estudos.
Uso indevido de marca e documentos falsificados
As investigações apontam que o empresário Ismael Fenner, apontado como responsável pela FIX, utilizava o nome do ISICS, instituição de ensino reconhecida no Paraguai. Os proprietários do ISICS denunciaram Fenner por uso indevido da marca e afirmam ser os únicos administradores legítimos da instituição.
O Ministério da Educação do Paraguai concluiu que carimbos, assinaturas e documentos usados para sustentar a legalidade dos cursos eram falsos, o que invalida os títulos emitidos pela FIX.
Prejuízo financeiro e repercussão
Alunos relatam prejuízos que vão além das mensalidades. Uma aluna afirmou ter pago R$ 23 mil por um mestrado em neuropsicologia; outra relatou perda superior a R$ 40 mil após obter e depois perder a validação do diploma. Mesmo com o cancelamento de 218 títulos pela Ufal, a plataforma Carolina Bori ainda registrava mais de 800 diplomas da FIX reconhecidos por outras instituições brasileiras.
Na Paraíba, investigadores apuram impactos na carreira de servidores públicos que usaram os diplomas para obter progressão funcional e aumento de remuneração, com possível discussão sobre ressarcimento de valores recebidos.
Ismael Fenner está em prisão domiciliar na região metropolitana de Assunção e também foi indiciado pela Polícia Federal brasileira. Em nota, ele afirmou ser alvo de perseguição de empresários do setor educacional, mas sua defesa reconheceu que os direitos sobre o ISICS estão suspensos atualmente.
O Fantástico apurou que ao menos outras 13 faculdades estrangeiras — a maioria nos Estados Unidos — prometem diplomas de pós-graduação a brasileiros de forma parecida com a da FIX. Segundo o delegado Franco Perazzoni, os grupos mudam de instituição conforme aumenta a fiscalização: “A paixão dele é dinheiro”, afirmou.