O g1 corrigiu, na manhã desta terça-feira (4), uma informação publicada sobre a Operação Sem Desconto: ao contrário do que constava na reportagem original, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) não foi alvo da nova fase da operação deflagrada nesta terça.
Os alvos reais na família do parlamentar são a esposa, uma filha e duas irmãs dele. A correção foi feita às 7h40 do mesmo dia, horas depois da publicação equivocada.
A confusão misturou duas fases distintas da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal para apurar descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Weverton Rocha, de fato, já havia sido alvo da investigação — mas em dezembro de 2025, em uma etapa anterior da operação.
Já a fase que motivou o erro do g1 foi deflagrada nesta terça-feira (4) e mira suspeitos de lavar o dinheiro desviado do INSS, com 18 mandados de busca e apreensão cumpridos no Distrito Federal e no Maranhão. É nessa etapa que aparecem os nomes da esposa, de uma filha e de duas irmãs do senador — não o parlamentar em si. O advogado e empresário Willer Tomaz também figurou entre os alvos dos mandados.
O episódio expõe como fases diferentes de uma mesma operação, deflagradas em datas distintas, podem gerar mal-entendidos sobre quem exatamente está sob investigação em cada momento.
O que a PF apurou sobre o papel de Weverton
Embora não figure como alvo desta fase, Weverton Rocha é descrito pela Polícia Federal como peça central em um esquema de lavagem de capitais. Segundo investigadores, o parlamentar atuava ao formular demandas, indicar beneficiários, cobrar repasses, gerenciar imóveis e interferir em decisões patrimoniais. As conclusões constam de decisão do ministro André Mendonça, do STF, que autorizou a nova fase da operação.
Na prática, a estrutura operava por meio de uma rede montada por Willer Tomaz. A PF descreve esse conjunto como um verdadeiro “hub financeiro, patrimonial e logístico” colocado à disposição dos beneficiários, entre eles o próprio senador. No centro da engrenagem financeira estava Fayla Zulmira Menezes, identificada na agenda de Weverton como “Financeiro WT Fayla Zulmira”. Ela controlava saldos, executava transferências, encaminhava comprovantes, gerenciava entregas em dinheiro vivo e consultava Willer Tomaz antes de atender a pedidos do parlamentar.
Diálogos reproduzidos no relatório da PF mostram que, entre setembro e outubro de 2024, Weverton cobrou expressamente um repasse de R$ 500 mil. Após consultar Willer, Fayla comunicou ao senador: “O valor já se encontra na conta PF da Dra Samya” — referindo-se a Samya Rocha, esposa do parlamentar e uma das alvos desta fase. Relatórios policiais revelam que, no período analisado, Samya recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas vinculadas a Willer Tomaz, notadamente sob a rubrica “AT”, identificada pela PF como o escritório Aragão e Tomaz Advogados Associados.
Mansão, postos de combustível e movimentações suspeitas
A investigação também mirou a aquisição de uma mansão no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, apontada como residência de Weverton. Registros indicam que o parlamentar negociou a compra por R$ 6 milhões — R$ 4 milhões de sinal e R$ 2 milhões de saldo. Contudo, em abril de 2023, o imóvel foi registrado formalmente em nome da empresa WT Administração de Imóveis e Bens S/A, pertencente a Willer Tomaz. Para a PF, a “dissociação entre a titularidade registral e o domínio econômico” constitui ponto central da apuração.
Outro braço da lavagem operava por meio das contas dos postos Petro São Francisco e Petro São José. Apesar de apresentarem situação financeira crítica, as contas dos postos eram usadas para adquirir fazendas, comprar maquinário agrícola e realizar repasses milionários a empresas do grupo, como a DJ Agropecuária e a Rocha Holding. Em um dos episódios relatados pela PF, a construtora Qualitech Engenharia Ltda transferiu R$ 5 milhões para a Petro São Francisco que, no mesmo dia, repassou o exato montante para a DJ Agropecuária. Anna Catarina Rocha, filha de Weverton e também alvo desta fase, providenciava contratos de empréstimo posteriores para tentar conferir justificativa contábil às transações.
A PF apurou ainda intensa movimentação de dinheiro vivo coincidente com voos privados entre Brasília e o Maranhão. Planilhas mantidas por Fayla Zulmira apontam lançamentos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão em espécie para custeio de aeronaves, hangares e despesas operacionais. Em 11 de maio de 2026, a PF apreendeu R$ 1 milhão em espécie com uma pessoa que, segundo a investigação, destinaria o valor a um ex-assessor do senador.
Em abril de 2023, Weverton orientou a filha a ir à residência do advogado Daniel de Faria Jerônimo Leite para buscar “processos” e “páginas” — termos interpretados pelos investigadores como referências a maços de cédulas. Dias depois, ocorreram depósitos em dinheiro nas contas dos postos, seguidos de transferências para a conta pessoal do senador.
A investigação que atinge os familiares do senador é desdobramento de um escândalo mais amplo. Em julho, a Polícia Federal já havia indiciado 48 pessoas por descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas do INSS, entre elas o ex-presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, e o lobista conhecido como Careca do INSS.
Weverton nega irregularidades e diz ter ‘nada a esconder’
Em nota divulgada na tarde desta terça-feira (4), horas após a deflagração da operação, o senador Weverton Rocha afirmou que todas as movimentações financeiras citadas pela Polícia Federal “decorrem de atividades profissionais e empresariais” e foram “devidamente declaradas à Receita Federal”. Candidato à reeleição ao Senado, o parlamentar declarou ter recebido a operação com “tranquilidade” e afirmou não ter “nada a esconder”.
Weverton disse não ter ficado surpreso com a nova fase, mas criticou o alcance das investigações em relação a sua família e a “apoiadores políticos”. Em sua nota, destacou que o Ministério Público Federal se posicionou contrariamente ao cumprimento dos mandados de busca e apreensão contra seus familiares. O relator do caso no STF, ministro André Mendonça, divergiu da Procuradoria-Geral da República e autorizou as buscas ao citar risco de destruição de provas e a gravidade dos fatos apurados.