O chanceler da Argentina, Pablo Quirno, afirmou nesta quarta-feira (5/8) que o governo de Javier Milei não tomará nenhuma medida contra o Brasil em resposta ao rebaixamento formal das relações diplomáticas anunciado pelo Itamaraty. A declaração, feita durante coletiva de imprensa, consolida a postura argentina de não escalar a crise — mas vem acompanhada de críticas: na véspera, o próprio Quirno havia acusado o governo brasileiro de agir por “questões puramente ideológicas”.
O Itamaraty formalizou na terça-feira (4/8) a decisão de manter o embaixador Júlio Bitelli em Brasília enquanto Javier Milei continuar com os ataques ao governo Lula. O que havia começado como uma convocação temporária para consultas transformou-se em rebaixamento efetivo do nível de representação diplomática entre os dois países.
Em nota, a chancelaria argentina classificou a decisão brasileira como “adotada unilateralmente” e afirmou que o Brasil está “se isolando do restante da região por questões puramente ideológicas”. O governo de Buenos Aires também declarou que as relações entre os Estados devem responder aos “interesses permanentes” dos povos, não às “necessidades políticas e/ou pessoais dos governantes de turno”.
Na terça-feira (28/7), logo após o início da crise, Quirno já havia descartado um rompimento com o Brasil em entrevista à rádio argentina Mitre, reiterando o apoio de Milei à família Bolsonaro e afirmando que os dois governos “veem o mundo de maneira diferente”. À época, o chanceler esperava o retorno de Bitelli a Buenos Aires — o que não ocorreu.
Crise diplomática começou após ataques de Milei a Lula
A tensão entre os dois países começou no dia 25 de julho, quando Milei criticou e insultou Lula durante a convenção do PL em São Paulo — evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos e chamou de volta o embaixador Júlio Bitelli para consultas.
A crise se aprofundou nos dias seguintes. No domingo (2/8), em entrevista à emissora argentina LN+, Milei voltou a subir o tom e chamou Lula de “ladrão”, “corrupto” e “não inocente”, questionando as decisões do STF que anularam as condenações do petista na Operação Lava Jato. Ao comentar a reação brasileira, o presidente argentino afirmou não considerar as declarações agressivas e disse que foram “palavras espontâneas”. “Agressivo é que alguém roube. É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar”, disse.
Inicialmente, o presidente Lula evitou alimentar a polêmica — ao ser questionado por jornalistas sobre Milei, respondeu: “Quem é esse cara?”. Após os novos ataques, porém, endureceu o discurso e classificou como “patacoada” a participação do argentino no evento do PL, afirmando que não aceitaria interferências externas na política brasileira.
O impasse permanece sem um pedido formal de desculpas por parte de Buenos Aires — o Itamaraty não recebeu nenhum sinal nesse sentido, e a recusa já era antecipada pela imprensa argentina como mais um episódio de desgaste autoinfligido por Milei ao próprio governo. A decisão do presidente argentino de republicar posts com críticas a Lula nas redes sociais foi avaliada por diplomatas como fator adicional de deterioração da relação bilateral.
Alckmin diz que crise não afeta integração do Mercosul
Enquanto a crise diplomática seguia sem solução, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou como “lamentáveis” as declarações de Milei contra o governo brasileiro, mas afirmou que a postura do argentino não compromete o avanço da integração econômica do Mercosul. Segundo ele, o bloco vive um momento favorável, com acordos já concluídos com Singapura, os países da EFTA e a União Europeia.
A declaração foi dada durante o Brazil-Korea Business Roundtable, em São Paulo, evento que discutiu novos acordos de cooperação em comércio, tecnologia e investimentos com a Coreia do Sul, no âmbito da visita oficial do presidente sul-coreano Lee Jae Myung. Em 2025, o comércio bilateral entre os dois países somou US$ 10,8 bilhões, e os investimentos sul-coreanos no Brasil chegam a US$ 8,9 bilhões — números que, segundo Alckmin, podem quase dobrar nos próximos anos.
Alckmin também afirmou que o Brasil segue negociando para reverter as tarifas impostas pelos Estados Unidos e defendeu a reciprocidade comercial como estratégia, sem caráter de retaliação.