Saúde

Brasil aprova primeiro centro de protonterapia contra o câncer

Paciente do SUS ainda vai esperar até 2030 pelo tratamento, que depende de aval do Ministério da Saúde
Equipamento de última geração do centro de protonterapia no Brasil, com sede do Ministério da Saúde ao fundo.

A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) aprovou financiamento de R$ 132,6 milhões para construir o primeiro centro de protonterapia do Brasil, tratamento de radioterapia considerado mais preciso contra o câncer. A unidade ficará na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O anúncio, porém, está longe de significar tratamento disponível: a previsão é atender os primeiros pacientes só em 2030, e o Ministério da Saúde ainda precisa decidir se incorpora a tecnologia ao SUS.

Prótons no lugar de fótons: por que a técnica ganha precisão

A radioterapia convencional usa fótons — os mesmos raios X dos exames de imagem, em doses muito maiores — que atravessam o tumor e continuam irradiando os tecidos saudáveis logo atrás dele. Na protonterapia, os fótons dão lugar a prótons, partículas capazes de concentrar quase toda a radiação exatamente no alvo e parar logo depois, efeito físico batizado de pico de Bragg.

Essa precisão não torna a técnica superior em todos os casos: para a maioria dos pacientes, a radioterapia convencional continua sendo a indicação correta. O ganho mais evidente aparece em tumores pediátricos próximos ao cérebro, à medula espinhal ou a outros órgãos sensíveis à radiação, quando poupar tecido saudável reduz o risco de sequelas futuras, como problemas de crescimento, infertilidade e até um segundo câncer causado pela própria radiação.

Sete tipos de câncer infantil como prioridade

O centro vai priorizar sete tipos de câncer infantil que exigem esse nível de precisão, entre eles meduloblastoma, retinoblastoma e glioma. O Brasil registra cerca de 8,6 mil novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano, e a estimativa do projeto é que perto de 15% desses pacientes tenham indicação para o tratamento com prótons. Hoje, entre 20 e 30 brasileiros viajam todos os meses ao exterior para se tratar, a um custo que varia de R$ 765 mil a R$ 1,02 milhão por tratamento.

Fila que só deve abrir depois de 2030

A construção do centro nem começou: o terreno de 15 mil metros quadrados no Rio já foi comprado, mas o equipamento, fabricado pela empresa belga IBA, só deve chegar ao país no segundo semestre de 2029 e levará cerca de um ano para ser instalado e testado. Antes de atender o primeiro paciente, a unidade também depende do licenciamento nuclear da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).

O projeto prevê reservar ao menos 60% da capacidade ao SUS, mas isso depende de aval da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que ainda nem recebeu a proposta formal. O rito é o mesmo que está em curso agora para o cabotegravir, injeção contra o HIV que o Ministério da Saúde propôs incorporar ao SUS em julho, sem prazo garantido para uma resposta.

A distância entre tecnologia de ponta e paciente do SUS já aparece em outros tratamentos oncológicos: pacientes da rede pública com câncer de pulmão ALK-positivo sobrevivem, em média, três vezes menos tempo do que os atendidos por planos privados. Também não é a primeira vez que um investimento bilionário na saúde brasileira é anunciado sem cronograma firme para o paciente — em julho, o país lançou um centro de insumos farmacêuticos a partir da biodiversidade sem meta ou prazo definido.

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