Ciência

Nova espécie de cobra é identificada a partir de fóssil raro achado em SP

Tametara mirim viveu há 85 milhões de anos e ajuda a entender origem subterrânea das cobras
Ilustração paleontológica da nova espécie de cobra fóssil encontrada em SP, com 85 milhões de anos.

Um fóssil raro encontrado em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, revelou uma nova espécie de cobra que viveu há cerca de 85 milhões de anos, no período Cretáceo.

Batizada de Tametara mirim, ela tinha adaptações para viver debaixo da terra. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (22) na revista científica Nature.

Um fóssil articulado e em 3D

Descoberto em 2020 em um sítio paleontológico de Presidente Prudente, o material é considerado o primeiro esqueleto de cobra encontrado de forma articulada no Brasil. Isso significa que diferentes partes do corpo permaneceram conectadas, e não apenas ossos isolados como acontecia em achados anteriores do Cretáceo brasileiro.

O fóssil preservou parte do crânio e mais de cem vértebras, além de ter sido mantido em três dimensões — o que permitiu um nível de detalhe raro para répteis desse período.

O que a microtomografia revelou

Usando microtomografia em 3D, uma técnica semelhante a um raio-X tridimensional, os pesquisadores examinaram o interior do crânio sem danificar o material e reconstruíram digitalmente a região ocupada pelo cérebro do animal.

A comparação com outras espécies fósseis e atuais confirmou que a Tametara mirim pertence a uma linhagem muito antiga de cobras e apresentava adaptações típicas da vida subterrânea.

Mosaico de ambientes na origem das cobras

Por décadas, cientistas discutiam se o corpo longo e sem membros das cobras surgiu a partir de ancestrais marinhos ou de ancestrais escavadores — como se fosse necessário escolher um único caminho evolutivo.

Os novos achados não encerram esse debate, mas sugerem um cenário mais complexo: diferentes linhagens primitivas já ocupavam ambientes distintos, da superfície ao subsolo, passando também pela água.

Próximos passos da pesquisa

Para Tiago Simões, professor da Universidade de Princeton e um dos autores do estudo, o achado tem significado especial por ter partido de um fóssil brasileiro.

Ele planeja combinar dados de fósseis com informações genômicas de cobras e lagartos atuais para investigar como surgiram características como a perda dos membros. As cobras provavelmente surgiram no período Jurássico, mas fósseis desse tempo ainda são muito fragmentados.

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