Uma equipe internacional de cientistas registrou, pela primeira vez e em tempo real, o nascimento de um trecho do fundo do oceano. O feito ocorreu no sul do Oceano Índico e foi publicado na revista Nature.
O fenômeno começou em 26 de abril de 2024, quando terremotos abriram uma fratura na crosta terrestre e liberaram magma suficiente para alimentar uma erupção submarina de cerca de 16 dias.
A descoberta explica como nasce a crosta oceânica nas dorsais meso-oceânicas, cadeias submarinas onde as placas tectônicas se afastam lentamente — no caso, a africana e a australiana.
Um observatório submarino flagrou o fenômeno em fevereiro de 2024
Para captar o fenômeno, pesquisadores franceses instalaram, em fevereiro de 2024, um observatório submarino próximo às ilhas Amsterdam e Saint-Paul, no Oceano Índico. O sistema reunia hidrofones, sensores de deslocamento do fundo do mar e equipamentos de mapeamento topográfico.
Às 19h56 (UTC) de 26 de abril de 2024, uma sequência de pequenos terremotos começou no centro da dorsal e se propagou por quilômetros ao longo da cadeia submarina — um padrão característico da abertura de um dique, fratura preenchida por magma. Enquanto isso, o fundo do vale submarino afundou cerca de quatro metros e se estendeu horizontalmente por mais de um metro, resultado do colapso parcial do reservatório de magma que alimentou a erupção.
A erupção durou cerca de 16 dias e expeliu entre 148 milhões e 160 milhões de metros cúbicos de lava. Em alguns pontos, os depósitos formados ultrapassaram 90 metros de espessura — volume comparável ao de grandes erupções já registradas em outras dorsais oceânicas.
Por que os terremotos não explicam tudo
O estudo também ajuda a resolver um antigo enigma da geologia: por que as dorsais meso-oceânicas registram menos terremotos do que os modelos previam. Os dados mostram que cerca de 76% do deslocamento das falhas durante o episódio ocorreu por deslizamento assísmico — um movimento lento, sem abalos perceptíveis — enquanto apenas 24% foi liberado por terremotos.
Outro dado chamou atenção da equipe: embora as placas tectônicas da região se afastem apenas 6,3 centímetros por ano, o conjunto de deformações registrado durante o evento equivaleu a 39 anos desse movimento acumulado. Para os autores, isso mostra que a expansão do fundo oceânico não é um processo contínuo, mas ocorre em episódios raros e intensos, batizados de “eventos quânticos” da formação da crosta terrestre — momentos em que um novo pedaço do planeta surge diante da ciência.
