O governo de Lula divulgou nesta quinta-feira (23) nota em que expressa ‘preocupação’ com o anúncio de Daniel Ortega de que não haverá eleições na Nicarágua. O Itamaraty pediu garantias de pleitos livres, periódicos e transparentes no país centro-americano.
O apelo ocorre dias depois de Ortega afirmar, em comício sandinista, que partidos ‘colocados pelos ianques’ jamais retornarão ao governo. As eleições presidenciais estavam previstas para 2027.
Discurso de Ortega reforça ruptura com a oposição
Durante comício que marcou os 27 anos da Revolução Sandinista, no último domingo (19), Ortega declarou: “Não pensem que porque não há guerra, estamos em paz. Eles continuam conspirando, conspirando, acabou a história de que partidos colocados pelos ianques, colocados pelos somozistas, voltarão ao governo. Jamais, jamais, jamais”. O presidente nicaraguense também acusou opositores de tentar usar o processo eleitoral “para tomar o poder”.
Ortega governa a Nicarágua há quase duas décadas. Ele retornou à presidência em 2007 e, ao lado da vice-presidente e primeira-dama Rosario Murillo, reescreveu a Constituição, enfraqueceu a oposição política e passou a controlar praticamente todos os ramos do governo nicaraguense.
Na nota, o Itamaraty afirma que a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia, valor com que o Brasil tem um profundo compromisso.
A fala de Ortega também foi criticada pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e por líderes internacionais, que classificaram o anúncio como um novo passo no fechamento político do regime nicaraguense.
O posicionamento do Itamaraty segue um padrão recente da diplomacia brasileira diante de crises eleitorais na região — como quando o governo pressionou por uma transição pacífica na Colômbia, depois que Gustavo Petro chegou a contestar a vitória da oposição no país vizinho.
O apelo por eleições livres na Nicarágua chega no mesmo dia em que o Departamento de Estado dos Estados Unidos reagiu a declarações de Lula sobre a integridade do processo eleitoral no Brasil, episódio que expõe o contraste entre a cobrança feita a Manágua e o debate doméstico sobre eleições.
