O Brasil passou a ter, nesta quarta-feira (22), a maior tarifa média aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul, com a alíquota de importação subindo para 18,17%, segundo o Global Trade Alert (GTA).
Especialistas apontam que o novo patamar tarifário reflete uma combinação de fatores políticos, econômicos e estratégicos, que colocam o Brasil no centro da disputa comercial entre Estados Unidos e China.
Como o Brasil ultrapassou os vizinhos na tabela de tarifas
Antes do novo tarifaço, o Brasil aparecia empatado com o Uruguai, com tarifa efetiva média de 11,66%, atrás apenas do Paraguai, que tinha 12,92%. A tarifa de 18,17% calculada pelo GTA difere da alíquota de 25% anunciada por Trump porque considera o peso de cada produto na pauta exportadora e as exceções previstas nas novas regras.
O novo percentual vale entre 22 e 26 de julho, período em que a Seção 301 passa a valer simultaneamente a uma tarifa temporária de 10% da Seção 122, que expira nessa data. Depois disso, o GTA estima uma tarifa de 14,42% — alívio que deve durar pouco, já que o governo Trump já sinalizou uma nova tarifa adicional, entre 10% e 12,5%, para substituir a que vai expirar.
Por que o Brasil virou alvo preferencial
Para Carlos Pio, professor da Universidade de Brasília, a tarifa reflete uma guinada na doutrina comercial de Trump: da lógica de livre mercado para uma visão nacionalista, que protege setores afetados pela desindustrialização e favorece alinhamentos políticos. Segundo ele, o desalinhamento ideológico do governo brasileiro, somado à proximidade que Bolsonaro cultivou com Trump, explica o tratamento diferenciado. Jan Marcel, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, acrescenta que o peso econômico do Brasil — maior economia da América Latina, com exportações de aeronaves, máquinas, petróleo, aço e produtos químicos — e a disputa entre Estados Unidos e China por influência global também pesam na equação. Esse cenário já vinha sendo associado por jornais internacionais ao clima eleitoral brasileiro e à candidatura de Flávio Bolsonaro, mesmo antes de o tarifaço entrar em vigor.
Governo brasileiro reage e aposta na negociação
Em nota, o governo brasileiro classificou a decisão americana como “um marco lastimável” nas relações bilaterais e argumentou que não há justificativa para medidas unilaterais, já que a balança comercial é favorável aos Estados Unidos. Uma fonte da Casa Branca, citada pelo jornal O Globo, sinalizou que uma eventual retaliação brasileira levaria os EUA a “potencialmente modificar” a ação para garantir “a eliminação dessas práticas”.
Apesar do tom de alerta, especialistas como Celso Figueiredo, professor da FGV, avaliam que um cenário de escalada é pouco provável. A Lei de Reciprocidade, sancionada após o primeiro tarifaço, ficou engavetada quando as tarifas anteriores foram derrubadas, e o mesmo padrão tende a se repetir agora. A aposta segue sendo a lista de exceções tarifárias e a via diplomática — motivos que, segundo o USTR, já embasaram a tarifa de 25% anunciada anteriormente, como o sistema Pix, o etanol e o desmatamento ilegal.
