O tarifaço aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros fez empresas do país buscarem novos mercados para reduzir a dependência do consumidor americano, e a China desponta como a principal alternativa entre os parceiros comerciais do Brasil.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil vendeu US$ 99,94 bilhões (R$ 512 bilhões) à China em 2025, mais do que o dobro dos US$ 37,7 bilhões (R$ 192,7 bilhões) exportados aos EUA no mesmo ano.
Analistas ouvidos pelo Tropiquim avaliam, porém, que o mercado chinês deve absorver apenas parte das vendas afetadas pelas novas tarifas americanas, já que o perfil dos produtos exportados aos dois países é bem diferente.
Diferença entre os produtos vendidos aos dois mercados
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras à China somaram recorde de US$ 58,32 bilhões (R$ 299 bilhões), alta de 21,9% frente ao mesmo período do ano anterior. O avanço mostra a força do mercado chinês, mas não resolve o problema criado pelo tarifaço.
Isso porque os produtos incluídos nas novas tarifas americanas são majoritariamente manufaturados — máquinas, equipamentos, aeronaves e itens siderúrgicos transformados. A China, ao contrário dos Estados Unidos, também é grande produtora e exportadora desse tipo de bem, o que reduz o espaço para o Brasil vender esses itens ao país asiático.
"A pauta exportadora brasileira para a China é restrita a poucas commodities, como minério de ferro e soja. Além disso, muitas das commodities que o Brasil exporta para a China não foram atingidas pelas tarifas impostas recentemente", explica a especialista em comércio internacional Vera Kanas.
Segundo o ministro Márcio Elias Rosa, o tarifaço atinge 18% das exportações brasileiras aos EUA, equivalente a US$ 7,4 bilhões da balança comercial entre os dois países — a fatia que agora as empresas tentam redirecionar, sem que a China consiga absorver o total.
O mercado chinês também impõe barreiras próprias. Desde janeiro de 2026, o país aplica cotas de importação e sobretaxas à carne bovina brasileira, com limite anual de 1,1 milhão de toneladas e sobretaxa de 55% sobre o volume excedente. Como Brasil e China não têm acordo de livre comércio, os produtos brasileiros seguem sujeitos a tarifas de importação, exigências sanitárias e regras específicas de habilitação.
Desaceleração chinesa e riscos de dependência
O momento econômico da China também limita uma expansão maior das compras do país. No segundo trimestre de 2026, o PIB chinês cresceu 4,3%, abaixo do início do ano e da meta do governo, em meio a uma crise prolongada no setor imobiliário, consumo doméstico fraco e excesso de capacidade industrial.
O analista Ruchir Sharma, da Rockefeller International, já alertou que aprofundar a dependência da economia chinesa é arriscado, já que a demanda doméstica do país deve seguir fraca por causa do envelhecimento populacional e do alto endividamento.
Por outro lado, a mudança de estratégia econômica da China deve ampliar a demanda por minerais críticos como níquel, cobre, grafite e terras raras, recursos abundantes no Brasil. Em 2025, o país recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos produtivos chineses, voltados sobretudo a energia renovável, mineração e mobilidade elétrica, tornando-se o principal destino global desse capital, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).
Para especialistas, o principal efeito do tarifaço deve ser acelerar a diversificação das exportações brasileiras, não aumentar a dependência da China. A busca por novos mercados já é uma estratégia em curso desde 2025, quando o Brasil acelerou acordos com União Europeia, Japão e Singapura para reduzir a dependência de um único parceiro comercial.
