A Polícia Federal acionou a Interpol para tentar localizar bens do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa, em mais uma frente da investigação sobre o suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que levou à quebra do Banco Master.
O pedido foi feito por meio da Silver Notice, mecanismo criado recentemente pela Interpol para rastrear patrimônio de suspeitos de crimes financeiros, segundo investigadores ouvidos pela BBC News Brasil.
O que pede a notificação à Interpol
A Silver Notice solicita que autoridades dos países-alvo informem a existência de imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves ou outros ativos registrados em nome de Vorcaro ou vinculados a ele por meio de empresas. Segundo a PF, os dados podem subsidiar futuras medidas de bloqueio, confisco e repatriação de bens, caso a Justiça reconheça origem ilícita no patrimônio.
O colapso do conglomerado comandado por Vorcaro, que reúne ao menos três instituições financeiras, deixou um rombo de R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito. Por trás desse número está um estilo de vida ostentado pelo banqueiro desde que assumiu o Master, em 2019: festas milionárias em destinos europeus, mansões em Brasília e apartamentos de alto padrão em São Paulo, incluindo uma comemoração em ilha particular nas Bahamas, em 2021, e um evento na Sicília, em 2023, com shows de Coldplay e Michael Bublé, que somaram R$ 363,2 milhões.
Em 2024, Vorcaro declarou à Receita Federal um patrimônio de R$ 2,4 bilhões, segundo dados apresentados à CPMI do INSS. Investigadores, porém, acreditam que o total real seja bem superior, e apontam uma mansão avaliada em R$ 180 milhões na Flórida como um dos ativos já identificados no exterior. A dificuldade em mapear esses bens foi um dos pontos que travaram as negociações de um acordo de delação premiada entre Vorcaro e a PGR, já que o banqueiro não teria colaborado com a localização de parte do seu patrimônio.
A difusão da Silver Notice é a segunda frente aberta contra o patrimônio de Vorcaro no exterior. Em abril, a Justiça dos Estados Unidos já havia autorizado o liquidante do Master a consultar instituições financeiras norte-americanas em busca de imóveis, fundos de investimento e obras de arte vinculados ao banqueiro.
Vorcaro foi preso pela primeira vez em 18 de novembro de 2025, no início da Operação Compliance Zero, quando o Banco Central decretou a liquidação do Master e de outras duas instituições ligadas a ele. Solto no fim daquele mês por decisão do TRF-1, voltou a ser detido em março de 2026, na terceira fase da operação, e segue preso em Brasília.
O caso também expôs supostas relações do banqueiro com o Judiciário e o Congresso. Os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes foram alvo de questionamentos sobre vínculos com o entorno de Vorcaro, enquanto a PF apura possíveis vantagens pagas pelo banqueiro aos senadores Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro e Jaques Wagner — este último sob suspeita por causa de um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador associado à sua atuação parlamentar em favor do Master.
