Agredida e ameaçada de morte pelo ex-marido, Nany Cardoso denunciou o agressor e pediu divórcio. Sem emprego e morando de favor na casa do irmão com as três filhas, ela alugou um carro para trabalhar como motorista de aplicativo em Niterói (RJ).
A história se repete entre mulheres que buscam autonomia após romper relações abusivas. Em 2024, 187,9 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Trabalho informal como rota de escape
Romper o ciclo de violência exige independência financeira, mas o mercado de trabalho impõe barreiras adicionais às mulheres. Segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT), 72,1% dos homens em idade ativa estão empregados, contra 53,1% das mulheres. Outras 31,7% não procuram emprego porque precisam cuidar de filhos, parentes ou da casa — e 17,1% das vítimas de violência doméstica são impedidas de trabalhar ou estudar pelos próprios maridos.
Para a professora Noézia Ramos, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), essa dependência econômica explica por que tantas mulheres demoram a romper relacionamentos abusivos. “As mulheres têm dificuldade de romper com as agressões porque percebem que não conseguem sobreviver sozinhas”, afirma. Com menor instrução e experiência profissional, muitas recorrem à informalidade — e o transporte por aplicativo virou alternativa recorrente, descrita por Ramos como “uma alternativa em um cenário de desespero”.
Autonomia rápida, mas precarizada
A advogada Andrea Sampaio, autora de dissertação sobre o tema pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), destaca que dirigir por aplicativo oferece renda imediata e liberdade de horários. “É uma atividade que dá segurança para escolher estar ou não em um relacionamento e que permite conciliar trabalho e vida pessoal”, diz. Segundo o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a renda líquida média dos motoristas varia de R$ 3.083 a R$ 4,4 mil por mês.
Flexibilidade que também expõe
Um levantamento de 2025 da consultoria Think Eva mostra que, para 73% das motoristas entrevistadas, a possibilidade de ganho imediato é o principal atrativo da profissão; 37% afirmam ganhar mais do que no emprego anterior, e 78% valorizam a flexibilidade de horários. Cardoso, por exemplo, dirige apenas à noite para acompanhar as filhas durante o dia: “Posso levar ao médico, participar das festas na escola, coisa que o emprego CLT não me permitia”.
Essa liberdade tem contrapartida: sem vínculo formal, as motoristas rodam pelo tempo que julgam necessário para fechar a renda do mês, sem limite de jornada ou direitos trabalhistas. O tema ecoa um debate mais amplo sobre jornadas de trabalho extensas no Brasil, enquanto o Congresso discute reduzir o teto semanal de 44 para 40 horas.
Assédio, insegurança e diferença salarial
Apesar do crescimento — hoje são 103,3 mil motoristas mulheres no país, 62% a mais do que há quatro anos, segundo o Cebrap —, elas ainda são minoria: apenas 6% do 1,7 milhão de motoristas de aplicativo do Brasil. Um estudo da OIT e da ONU Mulheres em países da América Latina, além de Portugal, Espanha e Andorra, mostrou que elas ganham, em média, 40% menos do que os homens nas plataformas de transporte.
Carina Trindade, presidente do Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), diz ter testado a diferença na prática: “Em uma roda com homens e mulheres, ligamos o aplicativo todos juntos e, na maioria das vezes, tocou primeiro para eles. O valor das corridas para os homens também era maior”. Procurada, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) afirmou não haver diferenciação de remuneração baseada em gênero.
A insegurança no volante é outro obstáculo: levantamento da plataforma GigU mostra que 59% das motoristas já foram assediadas, proporção que sobe para 97% entre as passageiras. Cardoso já foi vítima de assalto durante uma corrida em Niterói. A Uber diz promover campanhas educativas contra comportamentos inapropriados, enquanto a 99 afirma ter investido R$ 125 milhões em ferramentas de segurança nos últimos dois anos, o que teria reduzido em 33% os incidentes sexuais graves contra mulheres.
A desigualdade enfrentada pelas motoristas dialoga com um debate mais amplo no país: o Congresso discute equiparar a misoginia ao crime de racismo, proposta que já encontra respaldo em mais de 2 mil decisões judiciais sobre violência de gênero.
