Um ano depois da carta de Trump anunciando tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, o Itamaraty avalia que as negociações com os EUA chegaram a um impasse: o USTR está «inflexível» e sem apresentar contrapropostas.
A percepção de diplomatas a par das tratativas é que a decisão sobre o tarifaço já está, na prática, tomada — e caberá ao imprevisível Trump selar o desfecho.
De avanços a travamento
Durante o primeiro semestre de negociação, a diplomacia brasileira enxergou progressos. Tratativas diretas com o USTR e os encontros entre Lula e Trump — especialmente após a Assembleia Geral da ONU, em setembro do ano passado — produziram algum movimento.
Mas a partir de maio o cenário mudou. Segundo diplomatas, o USTR parou de apresentar «argumentos técnicos consistentes» e passou a sugerir que o Brasil deixasse o «orgulho» de lado — linguagem que, para Brasília, soa mais como pressão política do que negociação técnica.
A virada de postura coincidiu com a visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington, onde o pré-candidato do PL à Presidência entregou ao USTR um documento de 86 páginas com promessas sobre o PIX — e pediu adiamento das tarifas por 180 dias, prazo que empurraria qualquer decisão para depois das eleições de 2026. Leia mais sobre a ida de Flávio ao USTR e o documento entregue ao órgão americano.
PIX e desmatamento: os pontos de atrito
O governo americano trata o PIX como questão «inegociável» — e ainda sustenta a tese, classificada como «absurda» pelo lado brasileiro, de que o Brasil não age para combater o desmatamento ilegal.
Apesar de o Brasil ter apresentado dados sobre desmatamento e o sistema de pagamentos, o USTR não respondeu com contrapropostas, pedidos concretos ou caminhos alternativos. O Brasil chegou a apresentar uma proposta de encaminhamento, mas até agora não obteve resposta.
Três dias antes das audiências públicas do USTR, o Itamaraty havia sinalizado sua leitura do momento: enviou apenas observadores ao espaço — sem tomar a palavra — por entender que o canal real é o bilateral, não o espaço do setor privado americano. Saiba mais sobre a estratégia brasileira nas audiências do USTR.
A orientação interna da diplomacia brasileira, desde o início, foi clara: esgotar os canais de negociação, não abandonar a mesa e não deixar a ideologia contaminar as conversas. A estratégia se mantém — mas sem resultado prático até agora.
Nesta quinta (9), o representante de Comércio americano, Jamieson Greer, afirmou que a decisão sobre as tarifas virá «muito em breve» — mas reconheceu que os dois países ainda estão longe de fechar qualquer acordo. Leia a declaração completa de Greer sobre o prazo da decisão.
O cenário que Brasília enxerga
Integrantes do Itamaraty e do Planalto chegaram a uma conclusão: Trump quer que o Brasil tenha um presidente mais «amigável» à Casa Branca — alguém que aceite negociar minerais críticos, etanol e PIX nos termos americanos, algo que Lula tem recusado.
A leitura é que a relação, que chegou a ser próxima após os encontros entre os presidentes, azedou depois da visita de Flávio Bolsonaro a Washington. Para a diplomacia brasileira, o impasse atual não é técnico — é político, com olhos nas eleições de 2026.
