A Airbus reduziu nesta quarta-feira (8) em 1% sua previsão de demanda por aeronaves comerciais para os próximos 20 anos. A guerra com o Irã e as tensões tarifárias são apontadas como os principais freios à recuperação da aviação global após a pandemia de Covid-19.
A maior fabricante de aviões do mundo projeta agora 42.060 entregas de jatos comerciais entre 2026 e 2045. A Ásia deve liderar a demanda, respondendo por cerca de metade de todas as entregas no período.
Das 42.060 entregas previstas, 33.920 serão jatos de corredor único — segmento que inclui o Airbus A320neo e o Boeing 737 MAX —, enquanto 8.140 serão aeronaves de fuselagem larga ou de longo alcance. Ambas as categorias recuam 1% frente à projeção anterior de 20 anos.
A Airbus também alterou a composição das entregas: 47% do total deverá ser destinado à substituição de aeronaves mais antigas, ante 45% previstos anteriormente. O dado indica que as companhias aéreas estão priorizando renovação de frota em vez de expandir capacidade.
Petróleo e geopolítica no centro da revisão
O aumento nos preços do petróleo provocado pelo conflito no Golfo é o principal elo entre a guerra e o corte nas projeções. Com combustível mais caro, as aéreas refreiam planos de crescimento — e menos expansão significa menos pedidos de aeronaves novas.
O impacto geopolítico foi expressivo: o conflito derrubou a produção da OPEP+ de 42,77 para 33,13 milhões de barris por dia entre fevereiro e maio, choque que elevou os preços e forçou companhias aéreas a rever seus planos de frota. Após o cessar-fogo, a OPEP+ aprovou aumento de produção em agosto, mas os danos ao planejamento de longo prazo já estavam feitos.
A Airbus também revisou para cima sua projeção de crescimento do tráfego de passageiros, de 3,6% para 3,9% ao ano. Os executivos, porém, alertaram que a cifra representa, na prática, uma redução em relação aos 4,1% estimados em bases comparáveis anteriores — sinal de que o otimismo do setor segue contido.
Espaço para a China e possível fim da escassez
As projeções da Airbus mal acomodam os planos de produção anunciados pela própria empresa e pela Boeing, mas deixam espaço para o concorrente chinês C919 nos próximos anos — sugerindo que a escassez generalizada de aeronaves que marcou o pós-pandemia pode começar a diminuir.
No Brasil, o efeito cascata já era visível antes mesmo da revisão. O custo do querosene de aviação havia freado as aéreas nacionais: mesmo após dois cortes consecutivos no QAV pela Petrobras, o combustível ainda acumulava alta de 40,5% em 2026, levando a Latam a cortar 3% dos voos em julho — exatamente o tipo de retração de capacidade que a fabricante europeia cita como razão para rever suas projeções.
A Airbus não divulgou dados sobre a demanda por aeronaves de carga em seu relatório desta quarta-feira.