O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o batismo de uma fragata da Marinha, nesta sexta-feira (26), em Santa Catarina, para disparar contra Donald Trump e defender o reforço das Forças Armadas brasileiras.
“Ninguém respeita quem não se respeita”, disse Lula, ao alertar que o mundo vive hoje a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.
As críticas vieram em forma de alerta: Trump não descartou usar força para tomar o Canal do Panamá e a Groenlândia — e, para Lula, soberania nacional não se declama: se constrói com preparo.
O discurso aconteceu no batismo da Fragata “Cunha Moreira”, cerimônia militar que Lula transformou em palanque geopolítico. As declarações de Trump em 2025 — quando o republicano afirmou não descartar o uso da força para assumir o controle do Canal do Panamá e da Groenlândia — ainda reverberam na diplomacia brasileira.
“Estamos vendo o mundo vivendo a maior concentração de conflitos da história depois da Segunda Guerra”, afirmou o presidente, que deixou claro: o Brasil não pretende entrar em guerras, mas precisa estar preparado para se defender.
Tensão bilateral vai além das palavras
O contexto das críticas é mais amplo. Washington classificou recentemente as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas — medida que o governo brasileiro vê como potencial pretexto para ações mais duras, incluindo, em cenário extremo, uma operação militar no país.
No campo comercial, o atrito é concreto: os Estados Unidos propuseram tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros. Nesta semana, em carta ao senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), o secretário de Estado Marco Rubio reafirmou a posição americana. Uma audiência pública marcada para 6 de julho pode definir os próximos capítulos da disputa.
Na semana passada, Lula e Trump chegaram a aparecer lado a lado na foto oficial do G7, na França — mas sem troca de cumprimentos em frente às câmeras, numa cena que já antecipava o distanciamento criticado nesta sexta. Leia mais sobre o encontro no G7.
Ao deixar a cúpula em Évian, Lula havia sinalizado o tom: disse que Trump “fala muito e ouve pouco” e explicou por que o Brasil não pediu reunião bilateral com o americano. Confira o que Lula disse ao deixar o G7.
O distanciamento contrasta com o encontro de 7 de maio, quando Lula visitou a Casa Branca e ficou cerca de três horas reunido com Trump. O americano chamou o brasileiro de “muito dinâmico” e ambos adotaram tom positivo sobre a parceria econômica e comercial.
Flávio Bolsonaro como terceiro personagem
A relação bilateral passou a ter um complicador. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, viajou a Washington em maio e se reuniu com Trump, J.D. Vance e Marco Rubio. Ele defendeu a classificação das facções como terroristas — e chegou a pedir que o tarifaço não fosse aplicado ao Brasil, sem sucesso.
A tensão havia escalado já no início de junho, quando Lula chamou de “traição à pátria” a articulação de adversários políticos com o governo Trump em torno das sobretaxas. Veja o que Lula disse sobre a oposição e os EUA.
A audiência de 6 de julho é o próximo ponto de inflexão: empresas, associações e governos poderão apresentar argumentos antes da decisão final de Washington sobre as tarifas brasileiras.
