A Polícia Federal revelou ao Supremo Tribunal Federal que a assessoria do Banco Master redigiu integralmente uma emenda constitucional e a entregou ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) — inclusive com instruções para envio ao endereço residencial do parlamentar.
Em troca, segundo o documento da PF, Daniel Vorcaro bancava viagens internacionais de luxo e acomodações em hotéis de alto padrão para o senador, numa relação descrita pelos investigadores como “funcional e instrumental”.
O sigilo do relatório enviado ao ministro André Mendonça, do STF, foi retirado nesta terça-feira (16).
A ‘emenda Master’: texto do banco, protocolo no Senado
O ponto mais revelador do relatório da PF é a ‘emenda Master’ — apelido pelo qual o mercado passou a chamar a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023. O conteúdo da proposta foi inteiramente elaborado pela assessoria do Banco Master e repassado ao senador com orientações específicas, que incluíam a entrega do envelope diretamente no endereço residencial de Ciro Nogueira.
A conclusão dos investigadores se apoia em evidências forenses: comunicações extraídas de celular apreendido, metadados de arquivos e uma comparação literal entre as minutas privadas produzidas pelo banco e o texto que foi protocolado no Senado Federal — sem alterações substantivas. Segundo a PF, o texto “foi integralmente concebido” pela assessoria vinculada ao Master.
Para os investigadores, a troca era direta: enquanto Nogueira usava o mandato para avançar os interesses do banco, Vorcaro retribuía com financiamento de viagens internacionais e hospedagens em hotéis de elevado padrão no exterior.
O padrão descrito no relatório não é inédito nas apurações. Semanas antes, a PF já havia mapeado um alinhamento político semelhante entre Vorcaro e o ex-governador Cláudio Castro, que teria direcionado bilhões do RioPrevidência ao Banco Master — o que sugere uma estratégia sistemática de captura de agentes públicos.
O inquérito, que tramita no STF sob relatoria do ministro André Mendonça, aponta que o esquema foi construído com camadas de proteção: o uso de terceiros e empresas interpostas buscava mascarar a origem e o destino dos recursos, dificultando a rastreabilidade financeira das vantagens repassadas ao senador.
Defesa nega participação em atos ilícitos
Em maio, quando a PF mirou Ciro Nogueira em operação ligada ao Caso Master, seus advogados divulgaram nota afirmando que o senador está comprometido em contribuir com a Justiça e “à disposição para esclarecimentos”. A defesa também repudiou “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.
As evidências que embasam as conclusões sobre Nogueira foram extraídas dos mesmos aparelhos que revelaram um alcance ainda mais perturbador das atividades de Vorcaro. Nos mesmos celulares apreendidos, a PF encontrou indícios de que o banqueiro recorreu a milícia privada para atacar adversários e acessar dados sigilosos — enquanto tenta, em paralelo, fechar acordo de delação premiada com as autoridades.
