O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum realizaram uma videoconferência de 40 minutos nesta quarta-feira (10) para coordenar respostas à nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra os dois países.
Em nota conjunta, os dois governos reafirmaram apoio ao multilateralismo, ao direito internacional e ao princípio da não ingerência — linguagem que sinaliza resistência diplomática coordenada às pressões de Washington.
Os chanceleres Mauro Vieira, do Brasil, e Roberto Velasco, do México, acompanharam a reunião.
Pressão tarifária em dois flancos
A videoconferência ocorre em meio ao acirramento da disputa comercial entre Washington e os dois países. Nas últimas semanas, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) recomendou que o Brasil seja taxado por práticas econômicas consideradas desleais, com base na Seção 301 da lei comercial americana — instrumento criado na década de 1970 e ainda não implementado no caso brasileiro.
Entre os alvos da recomendação estão o PIX, o etanol, o combate ao desmatamento e a propriedade intelectual. Uma segunda recomendação responsabiliza o Brasil por não combater o trabalho forçado — acusação que Lula já rejeitou publicamente, declarando que “não pode aceitar”.
Do lado mexicano, Trump acumula ameaças por alegadas falhas no combate a cartéis de drogas e descumprimento de acordos bilaterais. Em janeiro, o presidente americano chegou a afirmar que os cartéis “controlam” o México e que os Estados Unidos passariam a realizar operações militares terrestres no país — declaração que elevou o tom da tensão bilateral.
Bachelet na ONU e o fim do embargo a Cuba
A agenda da videoconferência foi além das tarifas. Brasil e México reiteraram apoio à candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas. Ex-presidente do Chile, Bachelet chefiou a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos e dirigiu a ONU Mulheres.
O Brasil defende, desde o ano passado, que um cidadão latino-americano — preferencialmente uma mulher — assuma o cargo por consenso, em uma lógica de rotatividade regional. O apoio formal a Bachelet foi formalizado em fevereiro.
Os dois líderes também expressaram preocupação com a grave situação humanitária em Cuba e reafirmaram posição favorável ao fim do embargo americano ao país.
A postura adotada na videoconferência reflete o tom que Lula vinha endurecendo desde o início de junho. Em 3 de junho, o presidente já havia declarado publicamente que o Brasil não pode aceitar o “tratamento” imposto por Washington e criticou aliados de Bolsonaro por articularem, segundo ele, sanções contra o próprio país.
No mesmo dia da chamada com Sheinbaum, Lula reunia empresários e ministros no Conselhão sob o mote “Da soberania nacional ao protagonismo global” — sinal de que a pressão americana já mobilizava o governo em múltiplas frentes simultaneamente.
O alinhamento entre Brasília e Cidade do México também contrasta com o otimismo de maio, quando Brasil e EUA realizavam sua primeira reunião técnica bilateral e o governo Lula ainda apostava no diálogo para evitar as sobretaxas. A escalada posterior — com novas recomendações do USTR e ameaças de Trump ao México — recolocou a relação em terreno de confronto aberto.
Do lado mexicano, Sheinbaum havia sinalizado, em 2025, que a eventual imposição de tarifas por Washington resultaria em retaliação imediata — postura que o alinhamento com Lula agora reforça diplomaticamente.
