A uma semana do jogo de abertura da Copa do Mundo, marcado para 11 de junho no Estádio Azteca, professores grevistas tomaram o Zócalo — a praça central da Cidade do México e sede da fan zone oficial da Fifa.
A CNTE, maior sindicato docente do país, decretou greve nacional por tempo indeterminado em 1º de junho com uma demanda central: reajuste salarial de 100%. Os protestos já provocaram confrontos com forças de segurança, invasão ao Ministério da Educação e um incêndio no prédio.
No Paseo de la Reforma, manifestantes derrubaram e queimaram estátuas gigantes de jogadores erguidas para o torneio. Nas esculturas, a mensagem: “sem solução, a bola não rola”.
Salários baixos e Fifa na mira
O estopim da crise é a defasagem salarial histórica. Segundo o Instituto Nacional de Estatística do México, o salário inicial médio de um professor chega a apenas cerca de R$ 2 mil mensais — valor que recua ainda mais para os que trabalham em regime parcial. A CNTE rejeita o reajuste de 10% anunciado pelo governo em maio de 2025, com vigência prevista para setembro de 2026, classificando-o como insuficiente diante da alta da inflação.
Professores efetivos do ensino fundamental podem receber quase R$ 6 mil por mês, ligeiramente acima da média nacional. Os salários iniciais variam entre R$ 2,4 mil e R$ 4,2 mil, conforme a região e a formação acadêmica — e a maioria trabalha em jornada parcial.
O segundo maior sindicato docente, o SNTE, adota posição mais moderada: exige reajuste de 13% para 2026, também invocando a pressão inflacionária como justificativa.
Copa como vitrine de pressão
A escolha do momento não é acidental. O México co-organiza o torneio ao lado de Estados Unidos e Canadá e espera receber cerca de cinco milhões de turistas internacionais. Até 100 mil pessoas são esperadas no Zócalo nos dias dos jogos da seleção mexicana — mas o acampamento dos grevistas instalado na praça já forçou a Fifa a cancelar um curso de treinamento para voluntários.
Os prejuízos econômicos acumulados por empresários e empresas de logística já alcançam R$ 119 milhões, segundo estimativas, em função de vandalismo, bloqueio de vias e fechamento de aeroportos.
Sheinbaum entre a negociação e os holofotes
A presidente Claudia Sheinbaum enfrenta o dilema de não ceder às demandas máximas sem criar precedente fiscal — e, ao mesmo tempo, não reprimir manifestantes com o mundo assistindo. Em suas coletivas diárias, as mañaneras, ela atribuiu os atos de violência a “grupos radicais”, distinguindo-os dos professores em greve. “Houve muitas provocações. Na verdade, não acredito que tenham sido os professores”, disse a presidente.
O governo já descartou o reajuste de 100%, classificando-o como “incompatível com o orçamento federal”. Negociações seguem em curso, e um acordo com novos aumentos e benefícios previdenciários é considerado provável.
Na imprensa, o debate se divide. Veículos progressistas tratam os protestos como expressão legítima de reivindicações sociais. Já o jornalista Héctor Aguilar Camín, em coluna no Milenio, critica a “pedagogia da violência” e acusa o partido governista Morena de ter fortalecido deliberadamente a CNTE desde a campanha eleitoral de 2018 para garantir apoio nas urnas.
Cidadãos comuns e comerciantes locais mostram crescente irritação com os bloqueios, enquanto regiões menos afetadas tendem a demonstrar mais compreensão com as demandas sindicais.
