Por doze anos consecutivos, o Brasil dominou o ranking de melhores universidades da América Latina — mas essa liderança regional não se traduz em competitividade no cenário global.
Uma análise da série histórica do Center for World University Rankings (CWUR), de 2014 a 2026, mostra USP, UFRJ e Unicamp no topo continental enquanto as posições globais do país encolhem.
Campeão na vizinhança, o Brasil patina frente à ascensão chinesa e ao avanço mexicano — reflexo direto da falta de investimento em pesquisa.
A trajetória da USP: ascensão, pico e recuo
A Universidade de São Paulo é o melhor termômetro do ensino superior brasileiro no cenário global. Em 2014, a instituição estreou na 131ª posição mundial — já como líder absoluta da América Latina. Entre 2018 e 2023, a USP viveu seu auge: rompeu a barreira do Top 100, colocando-se entre as cem melhores do mundo.
Esse pico não se sustentou. Nos anos seguintes, a universidade oscilou entre as posições 103 e 117, e em 2026 encerrou o ciclo na 119ª colocação — sua pior marca em três anos. Os dados do CWUR indicam perdas nos critérios de qualidade da educação, empregabilidade, corpo docente e pesquisa.
Apesar do recuo recente, o saldo de 12 anos é positivo: a USP ganhou 12 posições globais em relação ao ponto de partida em 2014.
México avança, Argentina resiste
No tabuleiro latino-americano, o Brasil manteve três posições entre as cinco melhores da região em 2026, mas enfrenta pressão crescente. A UNAM saiu da 337ª posição em 2014 para a 287ª em 2026 — um salto de 50 posições que a colocou na vice-liderança regional, encostando em UFRJ (346º) e Unicamp (379º).
A Argentina, representada pela UBA, manteve presença constante no grupo de elite da região, mas sem o mesmo fôlego de crescimento do México ou o volume brasileiro. O padrão que emerge é inequívoco: quem investiu mais em pesquisa, cresceu mais no ranking.
O quadro não é exclusividade da USP: 87% das universidades brasileiras perderam posições no ranking de 2026, e a série histórica de 12 anos confirma que se trata de uma tendência estrutural, não de um episódio isolado.
Enquanto o Brasil recua, a China avança de forma acelerada. O país asiático ultrapassou os Estados Unidos em número de universidades ranqueadas no CWUR, impulsionado por investimentos governamentais contínuos em pesquisa e inovação — modelo que contrasta com a retração do financiamento público brasileiro.
No topo do mundo, a imobilidade é quase absoluta: Harvard ocupa a 1ª posição pelo 12º ano consecutivo, e o grupo das dez melhores segue dominado pelo duopólio EUA-Reino Unido, com MIT, Stanford, Cambridge e Oxford como pilares. Internamente, Penn subiu para o 7º lugar e Princeton avançou da 9ª para a 6ª posição — enquanto a Universidade de Tokyo caiu da 13ª para a 16ª, prova de que nem potências tradicionais estão imunes ao desaceleramento do investimento.
O recuo acadêmico contrasta com outro marco recente: o Brasil ingressou pela primeira vez no grupo de países com muito alto desenvolvimento humano — mas o avanço no IDH não captura o enfraquecimento das instituições de pesquisa que sustentam o progresso de longo prazo.
