Autoridades americanas abriram investigação formal contra a Fifa por práticas consideradas enganosas na venda de ingressos para a Copa do Mundo de 2026, que começa em junho.
Os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey emitiram intimação judicial obrigando a entidade a entregar documentos internos sobre o processo de comercialização.
A acusação central: a Fifa inflou artificialmente os preços e enganou torcedores sobre a localização dos assentos, cobrando mais do que em qualquer edição anterior do torneio.
A procuradora-geral de Nova Jersey, Jennifer Davenport, descreveu o processo de compra de ingressos como um “monte de confusão, escassez artificial e preços extremamente elevados”. Ela prometeu uma investigação minuciosa e informou que a Fifa será obrigada a liberar documentos internos — mecanismo que, no sistema jurídico americano, tem caráter compulsório.
As denúncias são específicas. Torcedores relatam ter sido enganados com a criação posterior de categorias front mais caras, lançadas após a venda inicial, que alteraram a referência dos assentos já comercializados. A precificação variável ao longo de diversas fases teria permitido à Fifa aumentar o valor de cerca de 90 das 104 partidas, com alta média de 34%.
O comissário do Departamento de Proteção ao Consumidor e ao Trabalhador de Nova York (DCWP), Samuel Levine, classificou as acusações de “conduta flagrantemente enganosa” e exigiu que a entidade explique por que os ingressos superaram os preços de qualquer edição anterior da Copa.
Fifa defende a demanda, mas os dados contradizem o discurso
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, havia defendido os valores argumentando que refletem a demanda “totalmente louca” do público pelo torneio. Os números, porém, contam outra história: até a quarta-feira (27 de maio), havia ingressos disponíveis para 86 das 104 partidas — incluindo praticamente toda a fase de grupos.
No Brasil, o Senado aprovou em 27 de maio uma lei que autoriza a Fifa a adotar exatamente a precificação dinâmica que autoridades americanas agora investigam, permitindo a variação de preços conforme a demanda desde que o torcedor seja informado no ato da compra. Entenda o que muda com a Lei Geral da Copa Feminina aprovada pelo Senado.
A investigação de Nova York e Nova Jersey não é o primeiro sinal de alerta. O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, enviou carta à Fifa no início de maio com preocupações sobre práticas potencialmente enganosas de venda de ingressos — sem anunciar, até o momento, investigação formal.
O atrito entre a Fifa e os organismos locais vai além dos bilhetes. A governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, já havia criticado a recusa da entidade em subsidiar o transporte durante o evento. A empresa NJ Transit chegou a anunciar uma tarifa de US$ 150 (R$ 758) para o trajeto de cerca de 29 km entre a Penn Station, em Manhattan, e o MetLife Stadium — percurso que normalmente custa US$ 12,90 (R$ 65) no bilhete de ida e volta. Após a repercussão negativa, o valor foi reduzido para US$ 98 (R$ 495).
Comprar ingresso para a Copa 2026 tornou-se um campo minado para os torcedores: além de sites fraudulentos que clonam a plataforma oficial da Fifa para vender ingressos falsos, agora é o próprio processo de venda da entidade que está sob investigação formal por práticas enganosas. A Fifa não se pronunciou sobre as apurações.
