Quatro em cada dez alunas do Ensino Fundamental e Médio no Brasil faltam às aulas ao menos uma vez por mês por causa de dor menstrual. A cólica é o sintoma mais relatado, presente em 57,7% das estudantes entrevistadas.
Os números integram pesquisa inédita do Instituto Alana com o Instituto Equidade.Info, divulgada nesta semana, realizada com 2,5 mil estudantes e 303 docentes de escolas públicas e privadas de todas as regiões do país.
Professoras também registram ausências mensais
O impacto não se restringe às carteiras escolares. A pesquisa revelou que 12% das professoras também faltam ao trabalho ao menos uma vez por mês em razão de sintomas menstruais — dado que amplia a dimensão do problema para além do universo estudantil e expõe uma vulnerabilidade sistêmica dentro das próprias escolas.
Entre as alunas, a cólica menstrual lidera o ranking de queixas, mas especialistas alertam que o conjunto de sintomas ligados ao ciclo configura uma questão de saúde pública com reflexos diretos no desempenho acadêmico e na permanência escolar.
Escola pune meninas pela dor que elas sentem
“As faltas escolares geram defasagem de aprendizagem e também punições pelos dias perdidos. A política escolar precisa dar conta desses dois problemas: compensar o conteúdo e ter políticas que não deixem que meninas sejam punidas pela dor que elas sofrem”, avalia Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana.
O levantamento aponta ainda que a menstruação é tratada como algo restrito ao universo feminino. Entre os meninos, 36,8% afirmam não pensar muito sobre o tema — índice bem acima dos 19,7% registrado entre as meninas, o que reforça a necessidade de uma abordagem coletiva no ambiente escolar.
Menstruação começa cedo — e a escola precisa estar preparada
A pesquisa também chama atenção para a precocidade do início da menstruação entre as brasileiras. Mais de um terço das alunas (36,5%) relataram ter menstruado pela primeira vez até os 10 anos. A maioria, 65,2%, já havia menstruado até os 11 anos — dados que reforçam a urgência de abordar o tema desde os primeiros anos do Ensino Fundamental.
Para o Instituto Alana, o equívoco central está em tratar a dor como algo individual. A entidade defende que o impacto funcional do ciclo menstrual seja reconhecido como fator recorrente e coletivo, não apenas como desconforto pessoal passageiro.
“Meninas e meninos devem ser incluídos e falar sobre o tema desde o início do Ensino Fundamental”, reforça Sofia Reinach. A declaração aponta para uma lacuna ainda presente nas políticas educacionais: a ausência de educação menstrual estruturada como parte do currículo escolar brasileiro.
Os pesquisadores defendem políticas integradas entre saúde e educação, com foco em justificativa de faltas, reforço do conteúdo perdido e cuidado integral das estudantes — sem que sejam penalizadas por um fenômeno fisiológico sobre o qual não têm controle.