As primeiras Enhanced Games estão em curso em Las Vegas, com 42 atletas competindo em natação, velocidade e levantamento de peso com permissão para usar testosterona, hormônio do crescimento humano e EPO sob supervisão médica.
Prêmios de US$ 1 milhão aguardam quem quebrar recordes mundiais — mas nenhuma federação esportiva internacional reconhecerá os resultados.
Pesquisadores publicaram no Journal of Drug Issues uma análise das alegações do fundador Aron D’Souza e concluem: a retórica do evento mascara riscos sérios à saúde pública.
O evento foi criado pelo empresário australiano Aron D’Souza, que em 13 entrevistas no YouTube repetiu os mesmos argumentos para desacreditar o antidoping e justificar o uso de substâncias para melhora de desempenho (PEDs). Um estudo recém-aceito no Journal of Drug Issues mapeou esse padrão retórico com precisão.
Os argumentos — e onde eles falham
D’Souza afirma que todos os atletas de elite fazem doping e que o esporte limpo é um mito. Cita estudo que aponta 40% de uso de PEDs com apenas 2% de detecção. Mas ignora levantamento que mostra isenções terapêuticas válidas em menos de 1% dos atletas olímpicos — sem qualquer associação com conquista de medalhas.
Outro argumento invoca autonomia corporal. A contradição é evidente: atletas recebem protocolos fechados sobre quais substâncias usar, em que doses e por quanto tempo. Coleta obrigatória de sangue é exigida, e salários de seis dígitos condicionam a suposta escolha. Isso é controle, não autonomia.
O evento também promete “acabar com o estigma” do uso de PEDs — o que, segundo os pesquisadores, pode ampliar o número de pessoas que os utilizam fora de qualquer supervisão médica.
Entre os atletas confirmados estão o australiano James Magnussen (ex-campeão mundial dos 100m livre), o americano Fred Kerley (campeão mundial de 2022 nos 100m rasos) e o britânico Ben Proud (prata em Paris nos 50m livre). Quem quebrar um recorde embolsa US$ 1 milhão — mas sem reconhecimento de nenhuma federação.
O padrão de desinformação não é isolado. Levantamento publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism revelou que 86% dos sites de clínicas hormonais faziam promessas incompatíveis com diretrizes médicas — o mesmo tipo de retórica que D’Souza replica sistematicamente em vídeos no YouTube.
Dinheiro, poder e conflito de interesses
Os Enhanced Games contam com patrocinadores poderosos: a 1789 Capital, fundo de Donald Trump Jr., e Peter Thiel, cofundador da Palantir Technologies. Com esse apoio político e financeiro, o evento expandiu sua atuação para a venda direta de testosterona, peptídeos e produtos de longevidade ao consumidor — criando um conflito de interesses claro nas alegações de segurança.
Em 2026, a FDA sob Robert F. Kennedy Jr. flexibilizou restrições à prescrição de testosterona e de certos peptídeos — mudanças que ocorrem em paralelo à expansão comercial dos Jogos. Influenciadores como Joe Rogan e Bryan Johnson integram a estratégia de visibilidade e legitimação.
D’Souza ainda defende que o envelhecimento é uma “doença” superável com PEDs. O argumento é conveniente para quem lucra com a venda das mesmas substâncias que promove como seguras.
Os riscos que os Enhanced Games minimizam já têm consequências documentadas no Brasil: a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, associada a cardiomiopatia possivelmente agravada por anabolizantes, ocorreu dias antes da abertura dos jogos — no mesmo período em que a Anvisa registrava crescimento de 670% no uso de testosterona.
Diferentemente dos atletas — com acesso 24 horas a profissionais de saúde —, o público geral estará exposto a riscos muito maiores. A prescrição excessiva de testosterona causa danos potencialmente irreversíveis, especialmente entre homens jovens envolvidos no fenômeno do “T Maxxing”.
Para os pesquisadores, o problema não é inovação científica: é imprudência institucional. Os Enhanced Games têm alcance global nas redes sociais e poderiam usá-lo para mensagens de saúde — não para vender substâncias cujos efeitos a longo prazo ainda são desconhecidos.
