A Organização Mundial da Saúde deu início nesta segunda-feira (18), em Genebra, à sua assembleia anual sob dupla pressão: dois surtos ativos — hantavírus e ebola — e a incerteza sobre a permanência de Estados Unidos e Argentina na instituição.
A reunião, que vai até sábado (23), ocorre depois de um ano marcado por cortes de orçamento, redução de pessoal e enfraquecimento institucional após os anúncios de retirada dos dois países.
Os Estados Unidos formalizaram sua saída no primeiro dia do segundo mandato de Donald Trump, em janeiro de 2025. A notificação prevê prazo de um ano para ser efetivada — período que já expirou. Washington, no entanto, ainda não quitou suas contribuições de 2024 e 2025: a dívida total chega a quase 260 milhões de dólares (cerca de 1,3 bilhão de reais).
A Argentina seguiu os EUA logo depois. Em janeiro, Israel apresentou no conselho executivo da OMS uma resolução para formalizar a saída argentina — tema que volta à mesa na assembleia desta semana. Já a retirada americana opera numa zona cinzenta deliberada: diplomatas e observadores concordam que ninguém quer forçar uma resolução sobre o assunto. A constituição da OMS não prevê cláusula de retirada, e a organização ainda não reconheceu oficialmente a saída de nenhum dos dois países.
Hantavírus e ebola como argumento político
O surto de hantavírus a bordo do cruzeiro MV Hondius não consta oficialmente da agenda, mas deve dominar os bastidores. O alarme internacional teve início em maio, quando a OMS apontou pela primeira vez a suspeita de transmissão do vírus entre passageiros do navio — o mesmo episódio que a organização agora deve usar como argumento para pressionar os países dissidentes a não abandoná-la.
Na semana anterior à assembleia, a OMS ainda cobrava quarentena de 42 dias para os repatriados do MV Hondius e admitia que novos casos poderiam surgir — evidência concreta de por que o mundo precisa de uma organização de saúde global com financiamento previsível.
Um novo surto de ebola na República Democrática do Congo também está nas discussões. Uma fonte diplomática, que pediu anonimato, disse ser "interessante" ver como a OMS usa os dois surtos para pressionar EUA e Argentina a não abandonarem a organização.
Surie Moon, codiretora do Centro de Saúde Global do Instituto de Pós-Graduação de Genebra, avaliou que a crise do hantavírus ofereceu uma ilustração clara da razão pela qual o mundo precisa de uma OMS eficaz, confiável e com financiamento previsível.
Reforma e eleição de novo diretor-geral
Grande parte das discussões desta semana se concentrará em definir se deve ser iniciado um processo formal de reforma da chamada "arquitetura da saúde global" — conjunto de organizações internacionais que nem sempre atuam de forma coordenada. A ministra da Saúde do Canadá, Marjorie Michel, avaliou que a crise atual permite à OMS "voltar a examinar sua estratégia com seus membros".
O processo para a eleição de um novo diretor-geral, prevista para o próximo ano, também começa a tomar forma. Nenhuma candidatura foi anunciada até o momento, mas declarações devem ocorrer ao longo da semana.
Resoluções sobre Ucrânia, territórios palestinos e Irã entram na pauta e prometem debates complexos. Analistas também esperam que as negociações em torno do tratado histórico sobre pandemias de 2025 — bloqueadas pela disputa entre países ricos e em desenvolvimento — se estendam por mais um ano.
Enquanto isso, os cortes já produzem efeitos concretos. Thiru Balasubramaniam, da ONG Knowledge Ecology International, disse à AFP que a OMS já reduziu atividades, inclusive na área de saúde sexual e reprodutiva — ponto que preocupa aliados da organização diante dos cortes generalizados no financiamento internacional para a ajuda humanitária.
