As Forças Armadas repassaram R$ 137,3 milhões ao Banco Master entre 2020 e 2026 via contratos de crédito consignado em folha de pagamento de militares. O montante equivale a 12,6% de tudo que o banco de Daniel Vorcaro recebeu de órgãos públicos federais no período.
O dinheiro não saiu do orçamento do Exército, da Aeronáutica ou da Marinha. São os descontos nos contracheques de militares que tomaram crédito junto ao Master — parte de um total de R$ 1 bilhão em repasses federais ao banco no mesmo intervalo.
Expansão acelerada após Vorcaro assumir o banco
Os dados do Portal da Transparência mostram que o crédito consignado não era um produto explorado pelo Master — então chamado Máxima — antes da chegada de Vorcaro. Ele adquiriu o banco em 2018 e assumiu o controle efetivo em 2019.
Em 2020, primeiro ano completo sob nova gestão, os repasses somaram R$ 3 milhões, com a Aeronáutica respondendo por R$ 1 milhão. Em 2021, o volume saltou 1.253% em relação ao ano anterior, atingindo R$ 43,4 milhões. O crescimento continuou de forma constante até 2025, quando os repasses chegaram a R$ 404,8 milhões — ano em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição.
No ranking de órgãos federais que mais transacionaram com o Master, o Exército ficou em segundo lugar, atrás apenas da Previdência Social, que opera consignados para trabalhadores e aposentados do INSS. Esse padrão se insere em um cenário de expansão sem precedentes: entre 2019 e 2024, os ativos do Master cresceram 2.123% sob Vorcaro — trajetória que o Banco Central classificou como construída sobre bases fraudulentas ao decretar a liquidação.
Rescisão e parcelas em aberto
Após a liquidação, decretada em 18 de novembro de 2025, o Exército rescindiu unilateralmente o contrato de credenciamento para novos consignados em 24 de novembro. Os contratos já firmados, porém, continuam gerando repasses: o Portal da Transparência registra R$ 4,3 milhões transferidos ao banco apenas em 2026.
Em nota, o Exército negou ter transferido verbas públicas ao Master. “Os valores envolvidos são oriundos de rendimentos particulares dos militares para o pagamento de dívidas privadas”, afirmou. O Comando atuou, por meio do Centro de Pagamento do Exército (CPEx), apenas como interveniente — realizando os descontos autorizados nos contracheques e os repasses mensais à instituição consignatária.
O banco foi credenciado após participar de edital público e comprovar habilitação jurídica, regularidade fiscal e qualificação econômico-financeira. “A instituição atendeu integralmente aos requisitos previstos no edital”, conclui a nota do Exército.
A Força Aérea Brasileira (FAB) confirmou que os repasses de 2024 e 2025 correspondem exclusivamente a crédito consignado. “Após a decretação da liquidação extrajudicial e diante da ausência de ratificação dos dados de domicílio bancário da entidade liquidante, não foram realizadas novas transferências”, informou a Aeronáutica, que conta com 234 entidades credenciadas para esse tipo de operação, sem custo para a Força.
O interesse em escalar a carteira de consignados junto às Forças Armadas revela uma lógica deliberada de captação: o Master lucrou mais revendendo carteiras de consignados a terceiros do que com os próprios juros dessas operações — o que tornava estratégica a captação em larga escala de militares como tomadores de crédito.
