No mesmo dia em que o presidente Lula almoçava com Donald Trump na Casa Branca, o governo americano escalava a pressão sobre as maiores processadoras de carne de capital brasileiro nos Estados Unidos.
A JBS Foods USA, braço americano da maior processadora de carne do mundo, e a National Beef, controlada pela MBRF — fusão de BRF e Marfrig —, estão entre os alvos de uma megainvestigação por suspeita de práticas anticompetitivas e formação de cartel.
As duas empresas integram as chamadas Quatro Grandes do setor, responsáveis por cerca de 85% da atividade no mercado americano de carne.
A megainvestigação foi anunciada formalmente em 4 de maio, horas depois de a viagem-relâmpago de Lula aos EUA se tornar pública. A iniciativa segue uma postagem de Trump na rede Truth Social, de novembro de 2025, quando o presidente norte-americano já havia sinalizado que a indústria da carne estaria na mira.
A investigação não é recente: desde novembro de 2025, o Departamento de Justiça americano já havia revisado mais de 3 milhões de documentos e ouvido centenas de pessoas do setor — e chegou a anunciar recompensas de até US$ 1 milhão para quem denunciar práticas ilícitas das gigantes da carne.
O empresário Joesley Batista, do Conselho de Administração da J&F, holding controladora da JBS, esteve em Washington no mesmo dia da reunião presidencial, segundo o jornal O Globo. De acordo com a Reuters, ele teria sido um dos articuladores do encontro entre Lula e Trump.
Doação milionária, discurso hostil
A Pilgrim’s Pride, subsidiária da JBS, figurou entre as maiores doadoras da campanha de Trump em 2024, com um aporte de US$ 5 milhões — equivalente a R$ 24,6 milhões. O investimento, porém, não impediu que representantes do governo americano adotassem tom duro ao tratar das empresas brasileiras no setor.
Peter Navarro, economista de Harvard e principal inspirador das políticas protecionistas de Trump, foi direto: “Não é apenas com abuso de preços e cartel que devemos nos preocupar. É também com a influência de estrangeiros em nossa cadeia de abastecimento.”
Para pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil, a investigação tem motivações que vão além do técnico. A ação permite ao governo Trump “terceirizar” a culpa pelo encarecimento da carne — componente central da inflação americana — para empresas estrangeiras, numa jogada com forte apelo eleitoral às vésperas das eleições legislativas de novembro de 2026.
O efeito colateral é o que especialistas chamam de “contaminação da agenda bilateral”: acusações de concentração de mercado e de risco à segurança alimentar se misturam ao debate diplomático entre Brasil e EUA, fortalecendo o discurso protecionista americano. Representantes do governo dos EUA chegaram a afirmar que o lobby da carne, “representado por brasileiros”, teria ameaçado redirecionar exportações para a China.
A MBRF respondeu em nota que atua “em estrita conformidade com as leis de defesa da concorrência” e destacou que sua subsidiária National Beef tem cerca de 700 produtores locais como sócios, detentores de aproximadamente 18% do capital da empresa. A JBS e a J&F não responderam aos pedidos de comentário até o fechamento da reportagem original.